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28 de Junho de 2017
 
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Blogue História Lusófona
História Geral de Cabo Verde - Um projecto de cooperação e utiidade prática

 

 

 

 

História Geral de Cabo Verde
Um projecto de cooperação e de utilidade prática



Maria Manuel Ferraz Torrão

 

      O objectivo central do projecto da História Geral de Cabo Verde foi a elaboração da história deste novo país africano, colónia portuguesa até 1975, através da cooperação entre investigadores cabo-verdianos e portugueses, o que representa uma solução a nível humano sem precedentes na historiografia europeia/colonial.
      A ideia inicial da execução desta História Geral remonta a 1986, quando numa deslocação a Cabo Verde do Presidente do IICT, Professor Doutor Joaquim Alberto da Cruz e Silva, os dirigentes da Direcção Geral do Património Cultural de Cabo Verde, de que deve salientar-se o Dr. Manuel da Veiga, actual Ministro da Cultura de Cabo Verde, mostraram interesse em contar com a experiência científica do IICT, no sentido de duas instituições elaborarem conjuntamente uma história geral do seu país, dada a inexistência de uma obra com estas características em Cabo Verde. Efectivamente havia estudos importantes sobre o passado destas ilhas elaborados por Christiano José de Senna Barcellos e António Carreira, entre outros, abordagens interdisciplinares história/geografia de Ilídio do Amaral e Orlando Ribeiro, mas não havia uma História Geral actualizada recorrendo ás novas metodologias das ciências sociais. Estava-se perante um pedido inédito: era a primeira vez que uma ex-colónia solicitava a colaboração à antiga metrópole para a elaboração da sua história, cujo percurso era indiscutivelmente comum e necessariamente conflituoso em várias épocas da sua história.
      Este projecto, coordenado pelo Professor Doutor Luís de Albuquerque (infelizmente doente desde 1991 e desaparecido em Janeiro de 1992) e pela Investigadora Coordenadora Maria Emília Madeira Santos, que prosseguiu sozinha até ao fim a sua direcção, foi executado por uma equipa mista que, através do cruzamento de experiência particulares e abordagens específicas tentou apreender e transmitir a história de Cabo Verde na dupla vertente europeia e africana que a marcou indelevelmente. 
           


Os Coordenadores do Projecto (Prof. Doutor Luís de Albuquerque e a Investigadora Coordenadora Maria Emília Madeira Santos) e um dos elementos portugueses da equipa (Ângela Domingues) durante uma visita ao mercado da cidade da Praia, em Junho de 1989.

 

      O recurso a uma equipa composta por portugueses e cabo-verdianos foi uma aposta acertada a nível da organização dos recursos humanos que elaboraram os 3 volumes da História Geral de Cabo Verde. A importância da presença de elementos cabo-verdianos neste projecto foi um aspecto enfatizado logo desde o início por parte da Responsável pelos trabalhos. Segundo as suas próprias palavras “os textos envolvem por vezes códigos inacessíveis aos historiadores portugueses, que só os cabo-verdianos podem descodificar”. Para além disso, “a história é a reconstituição do passado mas ela refaz-se em cada geração, segundo o próprio sujeito que põe novas questões aos vestígios do passado. Sem as questões que o povo cabo-verdiano põe a respeito do seu passado, não poderíamos contribuir para que este povo se reconheça e encontre a sua identidade na História Geral de Cabo Verde” (MEMS, Discurso proferido pela Coordenadora do 1º volume da HGCV, Stvdia , Lisboa, nº52, 1994, p.293). No entanto, o facto de se tratar da história de uma área geográfica em que a presença portuguesa foi não só marcante mas iniciadora da própria colonização do arquipélago exigiu a participação de portugueses na sua elaboração, pois a história de Cabo Verde não deixa de ser também história de Portugal.
      Em 1987, iniciaram-se os trabalhos preparatórios para o arranque definitivo do projecto que ocorreu em 1988, materializado em dois textos que constituíram as suas primeiras bases 1 . Nesses trabalhos pretendia-se exactamente responder a uma questão metodológica que se colocava com grande veemência em alguns meios: seria legítimo utilizar fontes escritas do país colonizador na elaboração da história de uma ex-colónia? Não se correriam riscos de interpretações parciais?
      Os resultados obtidos com estes estudos impulsionaram definitivamente o ritmo de andamento do projecto. Prosseguiu-se na linha estabelecida pelos coordenadores de se executarem no âmbito do projecto monografias que se destinavam a exercer um papel de trabalho intermediário entre a análise das fontes primárias e a redacção de uma história geral. Assim, cada membro da equipa foi encarregue de elaborar uma ou mais monografias que esclarecessem temáticas fulcrais de cada capítulo, constituindo pontos de apoio para poder ligar o fio condutor de uma história geral 2.
      A par da realização destas monografias, procedeu-se à definição e delimitação das áreas de investigação entre os diferentes elementos da equipa, atribuindo-lhes a responsabilidade de cada uma delas de acordo com formações e vocações próprias. A discussão quotidiana, a vantagem da entreajuda, da descoberta de novas pistas, da correcção de interpretações antigas e sua substituição por outras novas questões e a deslocação de toda a equipa a Cabo Verde, em Junho de 1989, para discutir com os investigadores e estudiosos locais os planos analíticos da obra, foram essenciais a realização desta obra importante, não só para a historiografia de Cabo Verde, mas também para Portugal.

 

                           

   

  


Registos da deslocação de toda a equipa a Cabo Verde, em Junho de 1989, para discussões científicas
com os investigadores e estudiosos locais.
Nas fotos: Maria Manuel Torrão, Zelinda Cohen, Ângela Domingues e Ilídio Baleno


      Em 1991, publicou-se o I volume da História Geral de Cabo Verde que cronologicamente abarca o século XV e 1ª metade do século XVI. Embora com reorganizações internas da equipa, o II volume saiu em 1995, cobrindo a centúria de 1560 e 1650, e em 2002 o III volume, cujo âmbito cronológico se estende até ao último final do século XVIII, ficou igualmente disponível ao público.   
     

 

          Capa dos I, II e III volumes da História Geral de Cabo Verde

   

      Esta tarefa só foi possível executar num «tempo curto» para os dois primeiros volumes (1988--1991 o l.º volume, 1992-1995 o 2.º volume) porque a equipa contou com um precioso «auxílio» acumulado ao longo de 30 anos: o espólio documental existente no Ex-Centro de Estudos de História e Cartografia Antiga do IICT. Este acervo, constituído a partir de pesquisa exaustiva da documentação existente em arquivos portugueses, espanhóis e italianos sobre a presença portuguesa na África Ocidental e arquipélagos atlânticos, e sua subsequente organização e sumariação, foi de crucial importância para o sucesso do projecto. Esta recolha de fontes manuscritas não ficou, no entanto, «encerrada» para único usufruto dos investigadores do IICT; pelo contrário, e no sentido de proporcionar a acessibilidade e divulgação das fontes a todos os interessados foram publicados Corpos Documentais das principais fontes de apoio da elaboração da História Geral. Opção igualmente inédita e inovadora a nível da historiografia e cooperação lusófona   .

 

   Capa dos I e II volumes dos Corpos Documentais da História Geral de Cabo Verde.

      Para a época abrangida pelo 3º volume a equipa deste projecto já não pôde contar com as mesmas facilidades na pesquisa documental, daí o tempo mais longo que medeou entre a publicação do 2º e 3º volumes (de 1995 a 2002). Efectivamente para manter o mesmo rigor cientifico das abordagens dos volumes anteriores, foi necessário proceder ao levantamento de fontes primárias em vários arquivos portugueses, com particular incidência no Arquivo Histórico Ultramarino, bem como recorrer ao espólio documental do Arquivo Histórico Nacional de Cabo Verde, que, ao contrário do que sucedera para os períodos cronológicos anteriores, dispõe de fontes de grande importância consideradas imprescindíveis para esclarecer a história local, documentos esses que nunca foram sequer trasladados para a Metrópole. Nesta articulação das fontes provenientes de arquivos portugueses e de outros caboverdianos foi, uma vez mais, de grande importância a existência da equipa mista que executou o projecto, pois cada um dos grupos se debruçou com maior intensidade na documentação dos arquivos do seu país.
      A importância científica e política deste projecto foi reconhecida em Portugal e em Cabo Verde, materializando-se em 3 prémios distintos concedidos aos vários volumes do Projecto: em 1994 a JNICT atribuiu uma Menção Honrosa no âmbito do Prémio Boa Esperança ao II volume da HGCV, em 1999, a Associação de Escritores Caboverdianos, distinguiu os I e II volumes com o Prémio Baltazar Lopes da Silva 1998, na modalidade de Ensaios e por último, em 2006, a mesma Associação brindou o III volume com o Prémio António Carreira.

 
                                             

 



Em cima, um dos membros da equipa do Projecto (Maria Manuel Torrão) a receber o Prémio Boa Esperança - Menção Honrosa das mãos do Primeiro-Ministro Professor Aníbal Cavaco e Silva.
Em baixo, o diploma da Associação de Escritores Caboverdianos atribuindo-lhe o Prémio


     
      A procura que estas obras tiveram por parte não só das comunidades científicas dos dois países envolvidos, mas também de outros investigadores estrangeiros obrigaram à reedição dos dois primeiros volumes sob a égide do IICT e com o patrocínio do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas.

 

* * *



      A periodização interna dos três volumes da História Geral de Cabo Verde justifica-se perfeitamente no âmbito endógeno da história das próprias ilhas. Nesta História Geral as ilhas foram encaradas como o fulcro em volta do qual tudo roda; um espaço com história e importância inerentes e não um local só mencionavel enquanto espaço inter-relacional com outras áreas de maior relevo. Assim, em qualquer dos volumes procurou-se fazer cortes cronológicos em datas cujos acontecimentos representassem rupturas nos vários aspectos da vida insular e não com a história de Portugal. Da mesma forma, a ordenação dos capítulos também assumiu características próprias, não se enquadrando nos moldes habitualmente utilizados nas Histórias Gerais.,mas que obedece às particularidades da história insular dos períodos estudados.
      Estas obras não pretendem ser, de forma alguma, um estudo final, completo e acabado sobre a História de Cabo Verde. Ao invés, que pelo seu carácter pioneiro e sem precedentes estão provavelmente sujeitas a críticas e erros que só no futuro poderão ser emendados; constituem, todavia, um ponto de partida válido para subsequentes investigações e interpretação da história de Cabo Verde e fomentaram um indiscutível aumento da produção historiográfica sobre estas ilhas dentro da comunidade científica caboverdiana.
Estes volumes solidamente alicerçados em amplos e importantes núcleos documentais procedentes de arquivos de vários países são actualmente o estudo mais avançado sobre história de Cabo Verde nos seus diversos campos temáticos (administração, economia, sociedade, cultura, etc.) e um projecto sem paralelo, por enquanto, para a história de outras ex-colónias portuguesas. Neste momento, os seus resultados têm uma utilidade imediata para Cabo Verde: a possibilidade de dispor de uma história científica e documentada, como nação que é, a qual também está à disposição de toda a comunidade científica em geral. Ainda este ano sairá um outro trabalho profundamente interligado com este: a História Concisa de Cabo Verde, uma síntese em linguagem mais acessível do conteúdo dos 3 volumes da HGCV. Financiada pelo IPAD, esta obra abrirá ainda mais o leque de leitores, e demonstra que este projecto deu variados resultados que se estendem a várias camadas da sociedade civil.

 

 

 

1. Subsí­dios para a História Geral de Cabo Verde: a legi­timidade da utilização de fontes escritas por­tuguesas através da análise de um documento do início do século XVI (Cabo Verde, ponto de intercepção de dois circuitos comerciais), de Maria Emília Madeira Santos e Maria Manuel Torrão, e Subsídios para a História Geral de Cabo Verde: a necessidade das fontes locais através dos vestígios materiais, de Ilídio Baleno.

 

2. A listagem de todos os trabalhos publicados no âmbito deste projecto serão disponibilizados no próximo artigo do Blogue de História Lusófona
     

2007-06-11
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