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21 de Setembro de 2017
 
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Blogue História Lusófona
Em torno da presença de judeus e conversos na África Ocidental

 

Em torno da presença de judeus e conversos na África Ocidental
José Alberto Rodrigues da Silva Tavim
 
Em relação ao texto em epígrafe, “História da Instituição” da publicação Pensar, Comunicar, Actuar em Língua Portuguesa, passo a comentar o parágrafo da página 30, relativo a judeus e conversos, como exemplificativo de alguns cuidados a ter nestas divulgações.
 
Em primeiro lugar parece haver uma confusão entre as designações sociais de “judeu” e “cristão-novo”, com consequências visíveis em termos de política identitária. Os “judeus” não podiam permanecer em qualquer território português na sequência da política de expulsão geral, de 1496, excepto devidamente autorizados, reconhecíveis e por períodos breves, para exercerem a sua actividade negocial ou diplomática, devendo ser acompanhados e alojados por um Familiar do Santo Ofício. Foram casos excepcionais as possessões portuguesas do Norte de África, sobretudo Safim e Azamor, onde D. Manuel I e D. João III permitiram a existência de “judiarias” até ao abandono destas cidades em 1541; e também o caso de Ormuz, em que como súbditos dos reis locais, os judeus estavam fora da jurisdição portuguesa. É por isso mesmo que se comprova a formação de uma comunidade de judeus de origem portuguesa, mas com fortes laços a Amesterdão e fora do controle português, na costa norte do Senegal (Petite Côte), nas primeiras décadas do século XVII.
 
Também gostaria de salientar que a palavra “deportados”, usada relativamente aos primeiros cristãos-novos que chegaram a Cabo Verde e S. Tomé me parece inadequada: como é do conhecimento geral, não se tratou de uma deportação mas de uma ordenação régia tirânica (como era prática, até teorizada, do exercício do poder, no tempo de D. João II), que obrigou jovens retirados aos pais e convertidos ao Cristianismo a instalarem-se na ilha de S. Tomé.
 
Este aspecto leva-nos à última parte do parágrafo, ou seja, que cristãos-novos e cristãos-velhos se aproximaram e misturaram, até por se esbater por completo o preconceito da “limpeza de sangue”. Estudos recentes, e que apresento em bibliografia anexa, revelam a extensão da actividade da Inquisição de Lisboa até África e mesmo a existência de Familiares e de Visitas Inquisitorias nesses territórios. E a “limpeza de sangue” era uma regulamentação social de carácter estatutário que excluía os conversos do exercício de determinados cargos, mesmo nas antigas colónias. Portanto, se em alguns casos se verificam casamentos mistos, o que explica a aplicação de termos como “meio cristão-novo”, “três quartos de cristão-novo”, etc., em muitos outros foi a própria exclusão social que impediu a referida miscigenação.
 
O autor anónimo parece assim transpor para o passado quadros sócias do século XIX e XX, em que, com o fim da Inquisição e a implantação de regimes liberais em Portugal, se foram instalando em Cabo Verde judeus livres, sobretudo de origem marroquina, os quais se relacionaram, por vezes, com mulheres da terra. Parece ser uma visão comum ao longo do texto, quando se tenta transpor para o quadro do passado intenções de construção política do presente, o que não deixa de ser interessante como objecto sociológico.
 
Segue-se uma bibliografia comprovativa dos dados aqui lançados.
 
 
Green, Tobias, “Further considerations on the Sephardim of the Petite Côte”, in History in Africa, vol. 32, 2005, pp. 165-183.
 
Horta, José da Silva, e Mark, Peter, « Duas comunidades sefarditas na costa norte do Senegal no início do século XVII: Porto de Ale e Joale”, in Inquisição Portuguesa. Tempo, Razão e Circunstância, coord. de Luís Filipe Barreto, Lisboa-São Paulo, Prefácio, 2007, pp. 277-304.
 
Idem, “Two Early Seventeenth-Century Sephardic Communities on Senegal`s Petite Côte”, in History in Africa, nº 31, 2004, pp. 231-256.
 
Mendes, António de Almeida, “le rôle de l`Inquisition en Guinée. Vicissitudes des présences juives sur la Petite Côte (XVe-XVIIe siècles) », in Revista Lusófona de Ciência das Religiões, Ano III, nºs 5-6, 2004, pp. 137-155.
 
Perez, Avner, « Marranes, Nouveaux-Chrétiens et Juifs du Portugal en Guinée et dans les Îles du Cap-Vert. XVÈME-XXÈME Siècles », in I Colóquio Internacional O Património Judaico Português, coord. de Maria Helena C. dos Santos, Lisboa, Associação Portuguesa de Estudos Judaicos, 1996, pp. 117-131.
 
Silva, Filipa Ribeiro da, « A Inquisição na Guiné, nas ilhas de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe”, in Revista Lusófona de Ciência das Religiões, Ano III, nºs 5-6, 2004, pp. 157-163.
 
Tavim, José Alberto Rodrigues da Silva, “Conversos: ´A península desejada`. Reflexões em torno de alguns casos paradigmáticos (séculos XVI-XVII)”, in Cadernos de Estudos Sefarditas, nº 6, 2007 (no prelo).
2008-01-27
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