Entre o Oriente e o Atlântico:
«interdependências» no Império Português, no final da Idade Moderna
Entre o Oriente e o Atlântico:
«interdependências» no Império Português, no final da Idade Moderna
Luís Frederico Dias Antunes
(Departamento de Ciências Humanas do IICT)
Tendo sido chamado a comentar o capítulo sobre os antecedentes históricos da CPLP inserido em Pensar, Comunicar, Actuar em Língua Portuguesa, revista comemorativa do 10º aniversário da instituição, julguei que talvez fosse útil aproveitar a ocasião não só para esclarecer alguns aspectos relacionados com a «interdependência» entre as várias colónias - tema que mereceu lugar de destaque na referida publicação -, mas, também, para divulgar sucintamente algumas das mais recentes contribuições de investigadores que, de algum modo, se debruçaram sobre esta matéria.
Uma das polémicas mais interessantes dos últimos tempos na historiografia luso-brasileira consiste em saber se a «matriz pluralista e compósita das unidades políticas europeias», pode servir de modelo de análise para as sociedades coloniais, conferindo-lhes um certo protagonismo político e realçando, simultaneamente, as ambiguidades e o carácter múltiplo e complexo das relações entre o centro (metrópole) e as periferias (colónias), como defende António Manuel Hespanha,[1] entre outros, ou se, pelo contrário, essa proposta encerra algumas dificuldades analíticas, porque menoriza o papel histórico do Estado sobre as colónias e afasta-se da problemática da «escravidão enquanto elemento constitutivo da sociedade luso-americana no século XVIII, como sustenta Laura de Mello e Souza[2]. Desde o início, especialmente a partir da publicação do livro O Antigo Regime nos Trópicos, em 2001, temos vindo a participar nessa discussão, realizada sobretudo no Brasil. Á época, os aspectos institucionais da administração do poder da metrópole e das colónias não faziam parte das minhas principais preocupações, nem fazem, ainda. Tal como Roquinaldo Ferreira,[3] procurámos, antes, analisar e valorizar as relações económicas existentes entre os diversos domínios ultramarinos portugueses, procurando chamar a atenção para o facto de que no Império português as «interdependências» eram complexas e muito diversificadas, necessitando, por isso, de uma análise «geograficamente» mais articulada. No caso de Roquinaldo, o papel das geribitas e dos panos asiáticos no intenso tráfico de escravos entre Angola e o Brasil, e, no meu caso, o papel dos metais preciosos e dos tecidos indianos no estabelecimento de novas dependências entre o comércio indo-brasileiro, especialmente após a chegada da corte ao Brasil.[4] No que a este pequeno artigo diz respeito, apenas me interessou reflectir sobre as «conexões imperiais» e saber se as dinâmicas sociais, políticas e económicas ocorridas em Moçambique, na Índia e no Brasil, poderiam ser impedidas pela centralidade do Império e pelas funções de administração da coroa, nos finais do século XVIII.
1. Vínculos de Moçambique ao espaço Índico setecentista.
Em Moçambique setecentista, o comércio e grande parte da vida económica esteve sob o domínio de uma minoria indiana oriunda do Guzerate[5]. Pelo menos desde 1686 - data em que o monopólio das viagens comerciais para a costa oriental africana passou da mão dos capitães das «praças do Norte» da Índia, para a dos comerciantes hindus e jainas, vulgarmente chamados de baneanes, a maioria residente em Damão e Diu -, foi manifestamente evidente a vitalidade da sua presença económica e social, em diversos domínios da economia moçambicana.
Do monopólio das viagens ao monopólio da actividade comercial na costa oriental africana, foi um pequeno passo. A coroa ainda tentou opor-se, mas, no fim de contas, sem grande sucesso. Com muito esforço e persuasão de vários governadores e vice-reis junto dos comerciantes reinóis que ainda possuíam alguma capacidade económica, gastos oito anos em consultas, reuniões e troca de correspondência entre Lisboa e Goa, o vice-rei D. Pedro António de Noronha de Albuquerque, lá conseguiu constituir uma Companhia de Comércio para os domínios ultramarinos do oriente, em 1694. O modelo queria-se inglês ou holandês, mas, ao contrário das suas congéneres, o consórcio não durou nem meia dúzia de anos. Quem leu a documentação sobre a constituição desta sociedade comercial e conhece a situação política e económica do Estado da Índia, facilmente conclui que a empresa estava destinada ao fracasso porque era notória a «falta de entusiasmo» dos comerciantes portugueses e porque os territórios de Macau e Timor recusaram-se a nela participar, o que restringiu imenso o âmbito da sua actuação.
Mas o que é curioso é que esta companhia comercial chegou ao fim da sua actividade, em 1699, com lucro. É certo que não tanto quanto gostariam os seus accionistas, mas, ainda que assim fosse, pode-se perguntar a razão de tal atitude.
Sem entrar em grandes detalhes, podemos dizer que o Estado da Índia - do qual Moçambique foi parte integrante até 1752 -, não conseguiu encontrar no seio do seu corpo mercantil, um número suficiente de negociantes com condições económicas para suportar a tenaz concorrência indiana que, ano após ano, colocou nos mercados africanos grandes quantidades de panos asiáticos a preços baixíssimos, com os quais comprou em abundância marfim, ouro e alguns escravos.
À coroa, a extinção da companhia de comércio das Índias orientais foi apresentado como um facto consumado. O poder em Lisboa, inebriado com as primeiras remessas de ouro do Brasil, rapidamente esqueceu a «urgente necessidade» de revitalizar a economia da colónia. Em pouco tempo, as autoridades metropolitanas perceberam que a actividade económica indiana em Moçambique enchia os cofres das alfândegas, a tal ponto que a sua presença criou laços de interdependência indispensáveis à manutenção do aparelho administrativo e militar, instituições que garantiam a soberania portuguesa num território que, sendo periférico no contexto do Império português, era, ainda assim, «o único cantinho de que todos [os que residiam no Estado da Índia] se remedeão».[6]
2. A atracção do Brasil em finais do século XVIII.
Só a partir de 1761 - quase uma década depois do início do processo de autonomia administrativa de Moçambique em relação ao Estado da Índia -, o poder metropolitano manifestou especial interesse em dinamizar o comércio com a Índia e alargá-lo a os outros domínios ultramarinos, nomeadamente ao Brasil.
O conjunto de medidas desenvolvidas pela coroa através das instruções dadas a Calixto Pereira de Sá,[7] nomeadamente a concentração e organização das alfândegas e a liberdade de comércio para todos os súbditos da Coroa portuguesa que quisessem negociar nos portos moçambicanos, promoveu o desenvolvimento de toda a actividade comercial na colónia. O afluxo de avultadas somas em dinheiro provenientes do tráfico de escravos em larga escala com as ilhas francesas do Índico e com o Brasil, foram os elementos que mais contribuíram para a criação de um pequeno grupo mercantil relativamente organizado e para a transformação da ilha de Moçambique numa plataforma giratória de mercadorias e homens, convertendo-a num grande centro económico e comercial, no último quartel do século XVIII. Sem nos deter nos aspectos puramente factuais relacionados com o tráfico de escravos entre Moçambique e a América portuguesa[8] podemos dizer que alguns dos negreiros brasileiros foram autorizados a estabelecerem-se em Moçambique, acabando por se envolver no comércio de cabotagem da África oriental. Foi o que aconteceu em 1761 com José Francisco da Fonseca, capitão da corveta S. Miguel o Anjo, que depois de vender uma das lanchas do seu navio, decidiu fixar-se em Moçambique, possivelmente em Inhambane. Envolveu-se no comércio interno, e fez fortuna no aluguer da corveta, no transporte e no tráfico de escravos, víveres e marfim dos portos da Zambézia para a capital. À data da sua morte, em 1782, Francisco da Fonseca ocupava o cargo de capitão-mor e juiz de Manica, vila que ficava nos confins do sertão zambeziano, e possuía um património considerável composto de objectos de ouro e prata, escravos, tecidos e uma interessante e valiosa biblioteca. De igual modo, em 1763 ou 1764, António Lopes da Costa e João Antunes de Araújo e Lima, dois dos mais influentes homens de negócio da praça carioca, decidiram estabelecer-se em Moçambique e aí constituir uma sociedade para os tratos que desenvolviam, não só em diversos portos da costa brasileira, mas, também, em Moçambique e na Índia. Pensada para o resgate de escravos de longa distância, esta sociedade que ficou conhecida pelo nome de Casa do Rio de Janeiro, viu-se obrigada igualmente a envolver-se no comércio interno de Moçambique, dado que as mercadorias que enviava para o «tráfico de almas», não conseguiam concorrer em qualidade e preços, com os tecidos indianos e com as armas e patacas trazidas pelos franceses.
Na realidade, a Casa do Rio de Janeiro também deu um importante contributo para a constituição de um pequeno grupo armador que ajudasse no desenvolvimento do comércio interno da colónia, na medida em que, até meados do século XVIII, Moçambique não dispunha de embarcações em número suficiente para fazer face à crescente demanda de escravos e marfim levada a efeito por comerciantes franceses e indianos.
Convém aqui relembrar que, até ao início da década de 1770, os negociantes moçambicanos e os poucos portugueses estavam praticamente confinados ao contrabando e aos pequenos negócios que efectuavam sob a capa dos cargos que exerciam na administração pública[9]. O aumento do número de mercadores portugueses e o primeiro esboço de um corpo mercantil só se tornaria visível, a partir de finais da década de 1770 e no início da década de 1780, com a expansão do tráfico de escravos desenvolvido pelos franceses das Mascarenhas e pelos brasileiros na costa oriental africana, especialmente na ilha de Moçambique, nas Querimbas e em Quelimane.
No início de oitocentos, estamos perante uma classe completamente distinta da que continuava a dominar a sociedade fundiária ligada aos prazos da Zambézia[10]. Esse grupo de mercadores possuía recursos para armar navios negreiros e viajar para as Maurícias e para a América. Em 1801, dos 14 navios utilizados no comércio externo moçambicano, 5 deles estavam envolvidos no tráfico de escravos para o Brasil e região platina (Buenos Aires e Montevideu)[11]. Os outros navios dedicavam-se ao comércio com a Índia, com as Ilhas francesas do Índico e, ainda, ao comércio de cabotagem, tanto de marfim como de víveres. Este núcleo mercantil integrava ainda outros indivíduos que se serviam dos cargos políticos e administrativos, desde o Governador geral da colónia até ao fiscal das alfândegas, passando pela inspector das cargas e pelos angariadores de escravos, para intervir directamente nesse comércio. Entre as famílias de negociantes realçam-se entre outros, os Rosário Monteiro, os Silva Guedes, o Ferreira da Graça, os Costa Portugal e os Cruz e Almeida.
Mencionemos apenas a título de exemplo o caso da família de Cruz e Almeida. Dela destacamos o patriarca António que foi escrivão da Junta da Fazenda e um dos maiores armadores e negociantes de escravos. Com navios próprios e fretados, repartiu os seus negócios por locais tão distintos quanto as Mascarenhas, Cabo da Boa Esperança, os portos do Brasil e Montevideu. Em 1808, António da Cruz e Almeida ocupou o cargo de juiz ordinário. Possuiu dois navios matriculados no Rio de Janeiro, um dos quais, o Feliz Dia, foi construído no próprio Brasil; seu filho Vitorino, capitão e piloto, foi um reputado negreiro. A família de António Cruz e Almeida manteve laços estreitos e de diversa natureza com o governo de Moçambique. Na verdade, enquanto a sua filha, Dona Juliana da Cruz e Almeida, estava casada com o secretário do governo, Francisco da Costa Lacé, ele próprio prosseguia os seus negócios associado ao governador Francisco de Paula Albuquerque Cardoso[12]. Estamos, portanto, no final do século XVIII na presença de um conjunto de famílias que, detendo alguns dos principais cargos da administração pública em Moçambique e encontrando-se ligadas entre si por laços de consanguinidade, ou outros, acabaram por se dedicar prioritariamente à actividade comercial, tendo um papel determinante no tráfico de escravos para a América do Sul e participando mais activamente no comércio de panos indianos.
Neste caso a coroa desempenhou um papel fundamental, na medida em que assumiu e facilitou o processo de intensificação das relações económicas e sociais entre Moçambique e a América do sul, na segunda metade do século XVIII. As medidas legislativas do período pombalino para os domínios de África oriental, especialmente a abertura dos portos da colónia a todos os vassalos do Reino, constituiu, no essencial, a solução que tornou legítimo os circuitos comerciais do tráfico negreiro que, desde meados de setecentos, eram cada vez mais concorridos por traficantes franceses e brasileiros.
O estudo das trajectórias pessoais dos homens de segundo plano, revela uma certa promiscuidade entre os cargos da administração colonial e os ganhos ilegítimos, bem como a indefinição entre o que pertence ao domínio público e ao privado nas suas carreiras coloniais. Apontando para uma realidade que questiona a noção de intransigência administrativa, os percursos individuais dos funcionários da administração colonial fazem ver que a especificidade de cada conduta exige uma resposta mais ou menos flexível.
3. As novas dependências do comércio indo-brasileiro (1808-1820).
Finalmente, vejamos em traços gerais os circuitos comerciais que Goa manteve com portos pouco distantes, em especial com Surrate e Bombaim, bem como as interdependências com os portos de África Oriental, Macau e Rio de Janeiro no quadro das transformações dos fluxos mercantis coloniais ocorridas no processo de emancipação do império brasileiro, entre 1808 e 1820.
A análise dos mapas estatísticos do comércio do Estado da Índia nesse período, permite realçar as seguintes conclusões: o Brasil, especialmente o Rio de Janeiro, foi a parcela do Império que mais beneficiou do comércio transoceânico com o Índico, correspondendo as remessas de mercadorias indianas, em média, a 73.4% do total das exportações do porto de Goa; por outro lado, 97% dessas mercadorias indianas, que seguiam o rumo do Brasil, eram compostas por têxteis; a esmagadora maioria dos tecidos reexportados por Goa era de origem guzerate e provinha do porto de Surrate e, em menor quantidade, dos chamados Portos do Sul; finalmente, foram enviadas para Goa quantidades apreciáveis de ouro e prata brasileiras que, no entanto, estavam longe de pagar os géneros asiáticos.
O valor total dos têxteis indianos remetidos para o Rio de Janeiro, entre 1809 e 1819, girou em torno de 8:400:000$000 réis (c. de 2370.000 libras esterlinas), uma quantia enorme se tivermos em conta que o total de ouro e prata brasileira enviado para Goa, no mesmo período, para saldar a factura dos têxteis foi apenas de 656:948$900 réis (185.055 libras esterlinas). Ou seja, nas transacções entre Goa e o Rio de Janeiro o valor dos metais preciosos apenas cobria cerca de 1/13 dos têxteis indianos.
Sem pretender entrar na análise do papel que tiveram os têxteis guzerates nos chamados tráficos brasileiros, tanto no comércio interno como no angolano, parece importante realçar que os têxteis e os comerciantes indianos criaram um poderoso elo entre Ásia, Brasil, África e a metrópole.
Para além dos têxteis indianos, o Rio de Janeiro importou de Goa uma pequeníssima quantidade de mercadorias muito diversas que se destinava ao consumo privado de uma pequena elite social. Entre essas mercadorias, que apenas representavam cerca de 1% do total das exportações de Goa, salientam-se diversas especiarias muito usadas como aromatizantes na culinária, e, ainda, as louças de porcelana e cairo, cujas fibras extraídas da casca da noz do coco eram muito utilizados na confecção de tapetes, no fabrico de cordame e na calafetagem de navios devido à sua elasticidade e incorruptibilidade na água.
Em relação ao movimento comercial entre o Brasil e a Índia os Mapas indicam a entrada de 36 navios em Goa. Só nos anos de 1817 a 1819 chegaram a aportar 4, 8 e 7 navios, respectivamente, cifras que estavam ao nível dos anos áureos da Carreira da Índia. A maioria das embarcações partiu do Rio de Janeiro o que parece confirmar a tese de Fragoso a propósito da «dinâmica própria» dos comerciantes privados cariocas.[13] Da Baía largaram cinco navios e de Pernambuco apenas um. Convém entretanto realçar que as rotas entre o Brasil e o Índico não se dirigiram apenas ao porto de Goa. Cerca de metade dos navios que navegavam em direcção à Índia fazia escala nos Portos do Norte, principalmente em Surrate e Bombaim, para comprar tecidos guzerates. Outros, interrompiam a viagem em Moçambique ou nas Maurícias para carregar cera e marfim que levavam para Surrate e Bombaim, ou paravam na ida para o Brasil para adquirir escravos. A análise global das relações comerciais de Goa revela a existência de um pequeno mas diversificado comércio com os portos da Índia, sul da Arábia, costa oriental africana e Extremo Oriente. Entre 1809 e 1819, a média das exportações de Goa não ultrapassou os 2% pelo que optámos por somente apresentar cifras quando a actividade mercantil foi relativamente intensa. Exceptuam-se os casos de Moçambique, Bombaim e Macau onde as saídas representaram 3%, 11% e 3%, respectivamente. Quanto às importações, apenas as de Surrate (44%), Bombaim (10.4%), Balagate (10.3%) Macau (4%) e Pondá (3.54%) são significativas.
Para além das rotas comerciais que aproximaram continentes, também as mercadorias estabeleceram novos tipos de dependências entre indianos, brasileiros e africanos: de carácter afectivo e deleite intelectual, através do envio de livros, papel, penas de escrever; de prazer gastronómico, pela remessa de especiarias, frutos secos e açúcar; de satisfação emocional, através da compra de bebidas alcoólicas, plantas medicinais, ópio e outros alcalóides.
Como foi anteriormente sublinhado, de Surrate, um dos grandes portos de exportação de têxteis, foram enviados para Goa enormes quantidades de tecidos de algodão multicolor, lisos ou estampados com desenhos de elefantes e penas de pavão estilizadas, geralmente designados de «panos de gentio».
O comércio entre Bombaim e Goa foi relativamente equilibrado uma vez que o valor das importações desta capitania foi superior em apenas 38.223$300. De Bombaim, território que os portugueses cederam ao ingleses em 1665 como dote de casamento de Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra, foram remetidos para Goa tecidos e algodão em rama, louças variadas, plantas medicinais e outras drogas, açúcar de jagra, chá, passas, cocos, figos, tâmaras e sagu, salitre e, ainda, bebidas alcoólicas e especiarias diversas.
De Bardez, Salsete, Pondá, e de outros territórios das denominadas Novas Conquistas, chegavam por terra pequenas quantidades de tecidos de chita e bertangis, cera, café, manteiga, frutas e especiarias, nomeadamente, mostarda e a pimenta redonda. No retorno, animais e homens, partiam carregados com tecidos e linhas, chá, açúcar, cocos e diverso tipo de objectos de uso doméstico.
De Balagate chegavam têxteis baratos, equivalentes a 85% do total das mercadorias exportadas dessa região. No caminho inverso, os balagateiros carregavam de Goa aguardente de caju (feni), vinhos tintos e brancos, gin e vinho do Porto, açúcar, frutos secos, mel de cana, azeite, incenso, cera, folhas de sene usadas como purgante e areca muito utilizada como masticatório.
A curta distância, entre Baçaim e Goa, situa-se um conjunto de pequenos portos que mantiveram contactos comerciais esporádicos e economicamente insignificantes: Malavan, Rajapor e Banakot.
O comércio de cabotagem com os portos do Malabar fazia-se em centenas de barcos pequenos e ligeiros, que cruzavam a costa carregados com têxteis, víveres e materiais de construção.
Os portos de Damão e Diu mantiveram com Goa um tráfico comercial contínuo mas economicamente pouco expressivo. Expediam alguns escravos e tecidos que, embora registados nos Mapas, estavam isentos de pagamento de taxas alfandegárias. Em troca recebiam uma reduzida quantidade de comestíveis, bebidas alcoólicas e especiarias. Era um comércio de cabotagem, realizado por embarcações de pequena dimensão. Os negócios mais importantes eram realizados por baneanes, hindus e jainas, e por comerciantes muçulmanos dessas duas praças com os portos da costa moçambicana.
Com Mascate, porto do sul da Arábia, mantém-se a tendência para Goa prosseguir um comércio de pequena monta. Cerca de 67% das mercadorias vindas de Oman compunham-se de frutos secos, amêndoas, passas, tâmaras. Goa exportava para a Arábia cocos, manteiga, café, cera, perfume de benjoím, diversas qualidades de madeiras e cabos de cairo para a construção naval.
Com a costa oriental de África traficava-se panos de cafre por prata, ouro, patacas e meias doblas espanholas, dentes de marfim e alguns escravos. O preço dos panos que se destinavam especialmente ao comércio de marfim e escravos era de 218.753$700 réis, o que representava cerca de 80% das exportações de Goa com Moçambique. Em contrapartida, enquanto que o valor total de moeda e metais preciosos enviados de África Oriental foi de 151.291$200 réis, o valor do marfim e escravos foi de 13.448$400 e 29.017$500 réis, respectivamente.
De Macau, no Extremo Oriente, vinham navios com açúcar, xailes, veludos, sedas, cetins, louças finas e de uso comum, sapatos, jogos de laca e sombreiros. Retornavam com frutos secos, pimenta redonda, café, vinho de cajú, salitre e algumas caixas de ópio, especialmente nos anos de 1816 a 1819. A média do ópio transaccionado nesses quatro anos correspondeu a 82.7% do total dos produtos enviados para Macau.
Finalmente com Madrasta e Bengala, portos localizados na costa oriental da Índia, os contactos foram muito esporádicos. Apenas em 1813 e 1814 chegaram navios vindos de Madrasta. Traziam apenas têxteis do Coromandel e levavam principalmente louças. Do Bengala somente saiu diversas qualidades de tecidos, e algumas arrobas de carne.
Os estudos que diversos investigadores tem vindo a realizar sobre as relações comerciais no mundo Índico e sobre a complexidade e diversidade de vínculos que esse espaço manteve com o Atlântico sul[14], levaram-nos a formar a opinião de que, tal como em muitos aspectos da História institucional e política colonial a autoridade era concertada, também em matérias de organização e administração económica ultramarina, o poder da coroa era negociado[15] e frequentemente bem mais limitado do que dava a entender e que o papel centralista da metrópole (Lisboa), quando era exercido, mantinha-se amiudadas vezes dentro dos limites da acção legislativa reguladora.
[1] Hespanha, António Manuel (2001), «A constituição do Império português. Revisão de alguns enviesamentos correntes», in João Fragoso, Maria Fernanda Bicalho e Maria de Fátima Gouvêa (org.), O Antigo Regime nos Trópicos. A dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII), Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, pp. 163-188; id., «Depois do Leviathan», in Almanack Braziliense, 5, 2007, pp. 55-66. [2] Mello e Souza, Laura de (2006), O Sol e a sombra. Política e Administração na América portuguesa do século XVIII, Companhia das Letras, São Paulo, (em especial pp. 11-77). [3] Ferreira, Roquinaldo (2001), «Dinâmica do comércio intracolonial: Geribitas, panos asiáticos e guerra no tráfico angolano de escravos (século XVIII), in Antigo Regime nos Trópicos …, pp. 339-378. [4] Antunes, Luís Frederico (2001), Têxteis e metais preciosos: novos vínculos do comércio indo-brasileiro (1808-1820), in Antigo Regime nos Trópicos …, pp. 379-420. [5] Antunes, Luís Frederico (2001), O Bazar e a Fortaleza em Moçambique. A comunidade baneane do Guzerate e a transformação do comércio afro-asiático (1686-1810), Lisboa, FCSH, UNL, dissertação de Doutoramento em História. [6] AHU, Moç., «Representação dos moradores dos rios de Sofala», 20.4.1694, cx. 3, d. 120. [7]As instruções dadas a Calixto Rangel Pereira de Sá, governador e capitão general de Moçambique, em 7.5.1761, foram executadas por João Pereira da Silva Barba porque o referido governador morreu durante a viagem para Moçambique. Sobre esta matéria veja-se Pegado e Silva, José Rui de Oliveira, A primeira carta orgânica de Moçambique - 1761, (1957), Lisboa, FCHF, FL, UL, Tese de licenciatura em História. [8] Antunes, Luís Frederico (2005), «O comércio com o Brasil e a comunidade mercantil em Moçambique (século XVIII)», apresentado no Congresso Internacional O Espaço Atlântico de Antigo Regime: poderes e sociedades, organizado pelo DCH/IICT e pelo CHAM/FCSH/UNL, Novembro, (no prelo); Capela, José (2002), O Tráfico de escravos nos portos de Moçambique 1733-1904, Edições Afrontamento, Porto, pp. 138-141 e segs. [9] E passo a citar Pereira do Lago: Quais serão nos mercadores Portuguezes, que os seus adquiridos, e remessas tenhão outra idea que não seja Portugal: … [aqui apenas existem] quatro Portuguezes sem spirito de ariscar, e com pouco que perder, desejando azas nos pez, para voarem daqui, e sem amor a Conquista, como se poderia conservar todo este Domínio de Sua Magestade sem ter rendimento na Alfandiga»? (cf. AHU, cod.1332, «Cópia da carta do Senado da Câmara para o marquês de Pombal», 17.8.1772, fl. 85v. [10] Rodrigues, Maria Eugénia (2002), Portugueses e Africanos nos Rios de Sena. Os Prazos da Coroa nos séculos XVII e XVIII. Dissertação de doutoramento em História, FCSH, UNL. [11] Conney, Jerry (1986). «Silver, Slaves and Food: The Rio de la Plata and the Indian Ocean, 1796-1806», in Tijdschrift voor Zeegeschiedenis, NederlandseVereniging voor Zeegeschiedenis, Amsterdam, 5:1, 35-45; Cooney, Jerry (1989). «Oceanic Commerce and Platine Merchants, 1796-1806: The Challenge of War», in The Americas, Washington, vol. 45, nº 4, Academy of American Franciscan History, pp. 509-524; Antunes, Luís Frederico (2007), «O Rio da Prata e a África oriental: negócios de escravos e prata (1796-1806)», in 1er Congreso Latinoamericano de Historia Económica / 4as Jornadas Uruguayas de Historia Economica, Montevideo, CDROM, ISBN 978-9974-8002-4-3.
[12] Antunes, Luís Frederico (2005), «Nichos e redes: interesses familiares e relações comerciais luso-brasileiras na África oriental (1752-1808), in Maria Fernanda Bicalho e Vera Lúcia Ferline (org), Modos de Governar. Ideias e práticas políticas no Império português (séculos XVI a XIX), Alameda Casa Editorial, São Paulo, p. 218. [13] Fragoso, João (1992), Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830), Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, p. 307. [14] Costa e Silva, Alberto da (2002), A Manilha e o Libambo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700, Nova Fronteira, Rio de Janeiro; Costa e Silva, Alberto da (2006), «Do Índico ao Atlântico», in João Fragoso, Manolo Florentino, António Carlos Jucá e Adriana Campos (org.) Nas Rotas do Império – eixos mercantis, tráficos e relações sociais no mundo português, Editora da Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, pp. 13-24; Antunes, Luís Frederico (2006), «A influência africana e indiana no Brasil, na virada do século XVIII: escravos e têxteis», in Nas Rotas do Império... pp. 137-164; Florentino, Manolo (2006), «Aspectos sociodemográficos da presença dos escravos moçambicanos no Rio de Janeiro (c.1730-1830)», in Nas Rotas do Império… pp. 193-244; Gonçalves, Adelto (1999), Gonzaga, Um poeta do Iluminismo, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro; Fragoso, João (2002), «Mercados e negociantes imperiais: um ensaio sobre a economia do Império Português (séculos XVII a XIX), in História: Questões & Debates, nº 36, Editora UFPR, Curitiba, pp. 99-127. [15] Greene, Jack (1994), Negociated Authorities. Essays in Colonial Political and Constitutional History, University Press Virginia, Charlottsville.