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21 de Setembro de 2017
 
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Os Cristãos-Novos e a Crioulização em Cabo Verde e nos Rios da Guiné, Séculos XVI-XVII

 

Os Cristãos-Novos e a Crioulização em Cabo Verde
e nos Rios da Guiné, Séculos XVI-XVII
 
Tobias Green, Centre of West African Studies, Universidade de Birmingham
 
 
Neste pequeno artigo, queremos dar início ao estudo de um tema que é de crescente interesse para os investigadores da história do chamado “Atlântico Africano”. Trata-se dos cristãos-novos – convertidos de judeus e seus descendentes – e do papel que tiveram no desenvolvimento de sociedades crioulas de Cabo Verde e da Guiné nos séculos XVI-XVII. Por razões de limitações de espaço, não será possível fazer mais do que um sumário da situação e história; o leitor interessado pode achar mais pormenores na minha tese de doutoramento[1].
 
A importância atribuíida a este tema deriva das pesquisas feitas por vários investigadores nestes últimos anos, mostrando que gente de descendência judaica – judeus oriundos de Amsterdão e cristãos-novos - tiverem um papel proeminente no Atlântico Africano, sobretudo aos fins do século XVI e nos primeiros quarenta anos do século XVII. Em vários artigos, os Professores José Horta e Peter Mark têm mostrado como os judeus sefarditas de Amsterdão moravam na “Petite Côte” do actual Senegal, aí estabelecendo uma comunidade religiosa com sinagoga e mantendo contactos importantes com as comunidades judaicas holandesas.[2] Esta comunidade foi integrada no mundo atlântico, tendo os seus membros contactos com o mundo criptojudeu do Brasil e também com Holanda, Itália e Portugal.[3] A sua presença na costa de Senegâmbia foi possível, em parte porque a história da zona mostra que estrangeiros foram bem recebidos num contexto de multiculturalismo e mesmo duma forte “crioulização primária”.[4]
 
Ainda que hoje uma pessoa de ascendência judaica não tenha conexão com judeus, nos séculos XVI e XVII a situação era distinta. A dissimulação em que os cristãos-novos que queriam manter a religião judaica tiverem que adoptar depois da sua conversão forçada de 1497, originara uma situação em que, sobretudo nas comunidades atlânticas, havia uma certa relação e mesmo contiguidade entre judeus “abertos” – morando em lugares onde podiam praticar a sua religião com liberdade, como em Itália e Holanda – e cristãos-novos - morando em zonas ibéricas, impedidos pela Inquisição da prática de judaismo.  Só no século XVII esta relação desapareceu.[5]
                
Neste contexto, a presença dos judeus da “Petite Côte” senegalesa setecentista está ligada a actividades dos cristãos-novos na zona guinense seiscentista. É muito provável que a comunidade judaica aberta do século XVII seja uma continuação das comunidades de cristãos-novos do século XVI, e que a decisão de morar em comunidade judaica aberta tenha derivado da recente existência de uma comunidade aberta em Amsterdão, de onde estes judeus vieram.[6] Temos várias obras recentes mostrando que no século XVI os cristãos-novos constituíam uma comunidade importante na zona de Cabo Verde e Guiné.[7] Na sua totalidade, estas obras sugerem que, para uma compreensão mais ampla e científica do processo da formação de sociedades atlânticas nesta zona, há que pensar mais no papel que tiverem os cristãos- novos.
 
 
Evidências da presença dos cristãos-novos
 
Mesmo que a maioria das obras publicadas acerca dos cristãos-novos se concentre nos fins do século XVI e começo do século XVII, as evidências documentais, tiradas de processos inquisitoriais, demonstram uma presença temporalmente mais ampla.
 
O primeiro caso de importância ocorre nas Canárias. Em 1526, Álvaro Gonçalves e sua mulher Mencia Baez, ambos portugueses, forão queimados pela Inquisição das Canárias; o filho, Duarte, precisava de sair das ilhas, e logo surgiu o rumor de que tinha fugido para Cabo Verde onde tinha parentes ricos.[8] Este caso dá uma ideia dos cristãos-novos que moravam em Cabo Verde, provavelmente desenvolvendo algumas práticas judaicas. Temos mais evidências da presença de cristãos-novos em Cabo Verde e na Guiné nestes primórdios do século XVI: primeiro, há uma denúncia famosa ao Tribunal da Inquisição de Évora de 1546, descrevendo como desde há 10, 15 ou 20 anos havia muitos cristãos-novos que estavam vivendo entre os africanos da Guiné (ou seja, desde 1520);[9] e, além disso, existem as denúncias relativas a Diogo e João Fonseca, donatórios da ilha remota de Brava e rendeiros da mesma desde 1518, que forão denunciados à Inquisição de Lisboa em 1542 por terem praticado ritos judaicos.[10] Estas evidências, e outras de que logo faremos a publicação, mostram com clareza que, desde os começos do século XVI – o século em que o mundo atlântico se começou a organizar – os cristãos-novos tiveram uma presença forte nas zonas guineense e caboverdiana.
 
Desde logo, a actividade dos cristãos-novos se tornou de âmbito pan-atlântico. Os cristãos-novos tiveram um papel importante no comércio das zonas caboverdiana e guineense, e este comércio foi-se logo orientando para América. As redes comerciais ligavam comunidades baseadas em Bugendo (actual Guiné-Bissau), ilha de Santiago de Cabo Verde, Cartagena de Índias (actual Colômbia) e Veracruz (actual México). No século XVI há casos de pessoas ligadas a redes guineenses denunciadas à Inquisição de Lisboa, fugindo para o México, onde moraram algum tempo até serem denunciadas novamente, acabando por lá morrer nos cárceres inquisitoriais. No século XVII, há vários casos de pessoas morando na Guiné com ligações de parentesco e comércio a outras averiguadas pelas Inquisições da América Espanhola.[11]
 
A quantidade de evidências é, pois, impressionante e mostra como os cristãos-novos foram uma comunidade importante na construção da sociedade caboverdiana. No século XVII há uma verdadeira chuva de denúncias relativas às comunidades de cristãos-novos nas ilhas de Cabo Verde e na costa guineense, e a Inquisição mostra-se mais ansiosa pela crescente influência deste grupo.[12] O último processo inquisitorial de que temos notícias data de 1671, do advogado Domingos Figueireido Relvado, sugerindo uma presença e relevância dos cristãos-novos neste sector do Atlântico africano, que perdurará por 150 anos, durante o período de emergência da sociedade crioula de Cabo Verde e Guiné.[13]
 
Porque tiveram então os cristãos novos este papel em Cabo Verde e na Guiné? Muitas são as respostas possíveis a este pergunta. Nas minhas publicações, defendo o argumento de que foi da máxima importância a sua adaptação cultural. Numa situação ibérica em que já tinham sidos forçados a mudar de religião e a modificar e dissimular as suas crenças e práticas religiosas, eles apresentavam-se em condições para mudar uma vez mais tais práticas, agora no âmbito cultural africano. Esta facilidade de adaptação foi muito importante num mundo onde os reis africanos tinham mais poder localmente que os reis portugueses. Foi a característica cultural de adaptação que ajudou ao sucesso dos cristãos-novos em Cabo Verde e Guiné, e que criou uma situação em que tiverem um papel importante no desenvolvimento das sociedades da região.
 
 
Contexto africano da presença dos Cristãos-Novos
 
Para a construção duma sociedade crioula em Cabo Verde e Guiné, foi preciso muito mais que um povo europeu disposto a e com capacidade para adaptar as suas práticas culturais: também, a situação africana foi da máxima importância. É de sublinhar que na zona da Guiné, dois séculos antes dos descobrimentos portugueses, se deu uma forte mistura de culturas, com a chegada dos povos Malinké à zona costera e a consequente “mandinguização” de muitos povos guineenses.[14]
 
Especialistas na historia oral da zona guineense estão de acordo que as fontes indicam que esta zona foi marcada por mudanças importantes a partir do século XIII. As fontes de historia oral nesta região marcam o século XIII como o princípio da epopeia Malinké na zona guineense. Os Malinké, sob o comandante Tiramaghan, primo do legendário Sunjata Keita, o fundador do império Malinké de Mali, chegaram à zona do actual Kaabu em meados do século XIII. Logo começou a expansão Malinké neste território, bem como mudanças forçadas dos povos que já ali moravam – Balanta, Mankanha, Bainunk, Jola e Brame, entre outros. Os estudos linguísticos e a  história oral, mostram com clareza que todos os povos da zona passavam por grandes mudanças nas suas culturas no momento de contacto com os Malinké de Tiramaghan e os seus sucessores.[15]
 
Não sendo este o espaço para fazer mais do que um sumário dos processos experimentados, vamos tomar apenas como exemplo o povo Balanta. As histórias orais dos Balanta falam, quase em unanimidade, da sua chegada à zona guineense em consequência da sua fuga dos Malinké. O mesmo é dizer que os Balantas que chegaram à costa guineense podem ser considerados, de algum modo, como refugiados da expansão Malinké. Mas há mais! O mesmo nome, “Balanta”, quer dizer em algumas interpretações, “os que recusarão” na lingua Malinké – ou seja, os que recusarão os Malinké. Resumindo, pode ver-se que a auto-identidade dos Balanta está fortemente ligada à sua fuga dos Malinké.
 
É também de sublinhar que, entre os Balantas, há varios grupos distintos. Aqueles que sempre foram mais rebeldes em relação aos negociantes atlânticos e mercadores portugueses foram os chamados Balantas Bravos. Mas também há os Balanta-Mane, ou seja, Balanta que estiveram dispostos a mudar os seus costumes, em parte para mandinguizarem-se – por isso, os “mane”. Esta diferença entre os Balanta é também evidência da forte influência da cultura Malinké na região em período anterior à chegada dos portugueses à costa.
 
Suponho que o resumo que, até agora,  tenho feito dos Balantas pode estender-se igualmente aos outros povos da zona. As histórias orais dos Mancanha e dos Bijagó mostram que também eles chegaram às zonas costeras que habitam actualmente devido à sua fuga das forças malinkés. A geografia da zona costeira é apropriada para acolher povos em fuga – cheia de matos, de estreitos por onde é difícil passar. Foi nesta zona que povos oriundos do sertão guineense e em fuga da expansão Malinké se fixaram.
 
Mas, como também por este artigo se pode ver, as deslocações geográficas dos povos ocorridas depois da expansão Malinké implicaram igualmente fortes transformações culturais. Estas mudanças de língua e de identidade implicaram também o que se convencionou chamar em inglês de “interculturation” – ou seja, o intercâmbio de ideias, conceitos e vocábulos entre dois povos. Esta “interculturation” foi responsável pela criação de uma situação de “adaptabilidade cultural” na zona guineense perante a chegada dos portugueses. Esta foi uma situação cultural ideal para o sucesso dos cristãos-novos – também dispostos a adaptarem-se – quando aí chegaram no século XVI.
 
Conclusão: A relevância desta História para o estudo do Atlântico
 
Temos visto até aqui apenas uma pequena parte de um panorâma mais vasto do que foi integrado no mundo atlântico no período da sua formação. A verdade é que em Cabo Verde e Guiné os intercâmbios culturais entre africanos e europeus criaram mais que uma sociedade crioula local: criaram também um mundo de comércio, com tudo o que isso implicava. Ou, e para citar Trajano Filho, o processo de crioulização é sempre mais forte entre os povos que estão na “primeira linha” de contacto, ou seja, entre os povos que entram em contacto através do comércio.[16]
 
Pretendemos que este estudo possa constituir um contributo que ultrapasse o mero entendimento de como era constituída a sociedade crioula de Cabo Verde e Guiné. Queremos também mostrar como este processo se integrou num fenómeno muito mais amplo, o do mundo atlântico em formação. Vimos como para ter sucesso no comércio em Cabo Verde e Guiné, a característica mais importante terá sido a capacidade de adaptação. De facto, a capacidade de construir uma identidade cultural híbrida foi de importância fundamental. Esta conclusão permite pôr as realidades caboverdianas e guineenses numa posição central nos debates de teóricos, como Homi Bhabha e Robert Young, que encontram no hibridismo uma atitude de rebeldia contra os poderes e os impérios da História.[17] Vemos como em Cabo Verde e Guiné foi precisamente este hibridismo que, mesmo que constituindo uma rebeldia contra os interesses portugueses instalados – de que é exemplo as inúmeras denúncias à Inquisição – ajudou, também, na consolidação do comércio dos poderes peninsulares no crescente império atlântico. Assim sendo, o hibridismo foi simultaneamente uma posição de rebeldia contra a cultura ibérica dominante e uma preciosa ajuda na consolidação do comércio, no qual esta dominação se baseava. Em conclusão, podemos dizer que em Cabo Verde e na Guiné, o poder e o hibridismo se desenvolviam duma maneira complexa, ainda que paradoxal. Foi assim, neste ambiente e com estas condições, a estudar futuramente de forma mais pormenorizada, que a cultura crioula se formou.
 
 
 
 
 

 


[1] Tobias Green, Masters of Difference: Creolization and the Jewish Presence in Cabo Verde, 1497-1672, tese de doutoramento, Universidade de Birmingham, 2007. Esperemos logo fazer publicação de um livro baseado nesta obra.
[2] E de sublinhar sobretudo José da Silva Horta e Peter Mark, “Two Early Sephardic Communities on Senegal’s Petite Côte”, History in Africa 31 (2004), pp. 231-256. Ver também o artigo destes autores em Universos da Inquisição, cooord. Luís Filipe Barreto (Lisboa, 2007).
[3] Tobias Green, “Further Considerations on the Petite Côte”, History in Africa 32 (2005), pp. 165-183, pp. 172-173.
[4] José da Silva Horta e Peter Mark, “Judeus e Muçulmanos na Petite Cote Senegalesa do início do século XVII: iconoclástia anti-católica, aproximação religiosa, parceria comercial”, Cadernos de Estudos Sefarditas no.5 (2005), pp.29-51, p.50. A frase “crioulização primária” é de Wilson Trajano Filho, “Uma Experiência Singular de Crioulização”. Brasília: Universidade de Brasília, 2003; publicado em www.unb.br/ics/dan/Serie343empdf.pdf .
[5] Sobre estas conexões, ver Jonathan I. Israel, Diasporas Within a Diaspora: Jews, Crypto-Jews and the World Maritime Empires (1540-1740) (Leiden: Brill, 2002), p.146.
[6] Horta/Mark (2005), 30.
[7] É de sublinhar Green (2007); Maria Manuel Ferraz Torrão, “Actividade comercial externa de Cabo Verde: organização, funcionamento, evolução”, da História Geral de Cabo Verde, Vol. 1 coord. Luís de Albuquerque e María Emilia Madeira Santos (Lisboa, IICT, 1991), p.255; Zelinda Cohen, Os Filhos da Folha (Praia, Spleen Edições, 2007).
[8] Green (2007), 80.
[9] A. Teixeira da Mota, Some Aspects of Portuguese Colonization and Sea Trade in West Africa in the 15th and 16th Centuries. Bloomington: Indiana University, 1978, p. 8.
[10] Green (2007), 81; ver também Zelinda Cohen, “A Administração das Ilhas de Cabo Verde pós-União Ibérica: continuidades e rupturas”, in História Geral de Cabo Verde, Vol. III, coord. Maria Emília Madeira Santos (2002) pp. 131-132.
[11] A evidência é considerada de uma maneira mais pormenorizada em Green (2007).
[12] Para uma excelente análise das relações entre a Inquisição e os cristãos-novos, ver a tese de mestrado de Filipa Ribeiro da Silva, A Inquisição na Guiné, nas Ilhas de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe (1536-1821): contributo para o estudo da política do Santo Ofício nos Territórios Africanos. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa; tese de mestrado.
[13] IAN/TT, Inquisição de Lisboa, processo 3473; extractos tirados do processo estão em IAN/TT, Inquisição de Lisboa, Livro 246, fólios 114v-116r e 122r-v.
[14] Sobre a chamada “mandinguização”, ver A.Teixeira da Mota, Guiné Portuguesa, (Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1954) Vol. 1, p. 141.
[15] Por um sumário excelente e recente das condições culturais na zona guineense, é de sublinhar Philip J. Havik, Silences and Soundbytes: The Gendered Dynamics of Trade and Brokerage in the Pre-Colonial Guinea Bissau Region (Münster, LIT Verlag, 2004), pp. 86-147.
[16] Trajano Filho (2003) op.cit..
[17] Robert Young, White Mythologies: Writing History and the West (London, Routledge, 1990); Homi K. Bhabha, The Location of Culture (London, Routledge, 1994).
2008-06-23
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