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25 de Maio de 2017
 
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Blogue História Lusófona
Ultimato e lusofonia global
A propósito do romance de Pedro Pinto, Serpa Pinto o mistério do sexto império que me coube apresentar na FNAC do Colombo em 07/11/14, junto uma breve reflexão sobre a Conferência de Berlim, a que neste blogue de 09/12/10 chamei a primeira paragem da lusofonia global, e o ultimato que, segundo o romance, Serpa Pinto antecipara durante a sua viagem, mais de dez anos antes. Pelo caminho, dou nota do enredo que, envolvendo outros autores deste blogue, poderá interessar aos seus leitores, até para demonstrar que o blogue existe. Conhecia o gosto do autor pelo Brasil colonial mas confesso que a veia africana me tinha escapado até ao convite para apresentar este romance cuja capa ostenta uma fotografia do Arquivo Histórico Ultramarino tendo como fundo um mapa da África atlântica publicado em Amsterdão em 1661, o olho da providência que passou da nota verde do dólar para o universo (dan) browniano e vários objectos de viagem que se julga pertenceram ao herói fotografado. Referências pois aos séculos XVII, XVIII e XIX para um romance baseado num contrafactual de choque vivido entre Lisboa, Porto e Cinfães: cinco anos antes da Conferência de Berlim o Mapa cor-de-rosa já era conhecido do governo britânico! Bastam umas linhas para capturar o enredo: um lisboeta biógrafo profissional que parece o autor do romance vive uma reprimidamente tórrida paixão com uma historiadora portuense. São 22 capítulos e 200 páginas terminadas num (mítico?) Hotel Portugal no dia em que passaram seis anos sobre a falência da Lehman Brothers. Aliás, nada parece impedir que os encontros cruciais no Martinho da Arcada e na Sociedade de Geografia se tenham passado em real time nos primeiros nove meses do ano corrente. “Antecipou a perfídia britânica em mais de dez anos” diz Sebastião, putativo biógrafo de Serpa Pinto, o herói fotografado na capa do romance, a Constança Corte-Real, que o desafia por profissão: “Calma, Sebastião. Acalma-te por favor. O que aqui está ainda não é nada: uma carta na terceira pessoa que fala de Serpa Pinto e de uma outra carta que tu ainda não tens! Sim mas existe, pelo menos isso – interrompe Sebastião…Tem de estar na casa de Serpa Pinto…Constança treme, só de pensar em regressar a Cinfães e àquela estrada de memórias ardentes…” (pp. 172-3)… Mas o romance é mais do que thirtysomethings desperately seeking Serpa porque a carta dele faz parte de uma narrativa que se configura como a raíz do conhecido livro Como eu atravessei África, interrompido num momento crucial e reencontrado por tentativas e erros do biógrafo e da historiadora. Como quero situar este romance histórico contrafactual no plano geopolítico a que convida a referência permanente à queda da monarquia, é indispensável explicitar o conceito de lusofonia global, que é usar a língua inglesa para globalizar a lusofonia. Assim: num mundo com concorrência à escala global, a lusofonia deve projectar os nove países em direcções comuns, tornando-se um desígnio nacional em todos eles, na linha do que Antoine de Saint-Exupéry escreveu em Terre des hommes, 1939: “aimer ce n’est pas se regarder l’un l’autre, c’est regarder dans la même direction”. Esta citação é inclusiva porque usa o francês, língua da república por excelência, e tem a vantagem de trazer o século XX que falta na capa (séculos XVII a XIX) e nos diários dos amantes desunidos (capítulos 2, 12, 18 e 20 para Sebastião, capítulos 4 e 20 para Constança, com narrativas na terceira pessoa no capítulo 6, o almoço no Martinho, e uma mistura de século XIX e XXI nos capítulos 7, 8, 10, 11 e 19). Para situar a narrativa intitulada “De Mozioatunia a Durban”, que cai ao mar a caminho do paquete Danúbio, nada melhor do que a conclusão do capítulo final escrito por Serpa Pinto (p. 188): Num último relance, Serpa jura ter visto as palavras “traição” e “ultimato” a diluírem-se nas águas do Índico. Num derradeiro adeua ao continente, naquele mar encrespado, Serpa acredita até ter visto o desenho de navios de guerra a ameaçarem o Terreiro dos Paço./ A ondularem, como jacarés em pleno Zambeze. Começo por relativizar a expressão ultimato. Basta comparar o famoso telegrama de 11 de Janeiro de 1890 que termina referindo que o Enchantress estava em Vigo esperando ordens para recolher Mr. Petre caso “as forças militares portuguesas actualmente no Chire e nos países dos Makololos e Mashonas” se não retirassem. Ora a Primeira Guerra Mundial começou fez cem anos em Julho passado porque o Império Austro-Húngaro fez uma série de exigências ao governo da Sérvia que as aceitou todas menos uma e foi enviado um telegrama declarando a guerra. Aqui nem a aliança biltareal mais antiga do mundo foi beliscada: a Coroa anuiu porque de nada valia a ocupação efectiva sem o apoio francês e alemão, e aquele não seria suficiente como se viu em Fachoda oito anos mais tarde, quando a própria França recuou. Quero assim aumentar a significância da conferência de Berlim, até porque a participação portuguesa foi analisada com base nas cartas do capitão Carlos Roma do Bocage ao MNE seu pai que felizmente se não perderam como as do major Serpa Pinto. Em Portugal na Conferência de Berlim, 2013, Duarte Ivo Cruz revela que Luciano Cordeiro conseguiu rebater as posições de Stanley (p. 28), demonstrando melhor conhecimento do terreno. Manuel Lobato, historiador do IICT (Saber Tropical 125 anos, 2008, p. 20) considera o plano de Luciano Cordeiro, seguido por Serpa Pinto, um exemplo do que chama a visão “política” por oposição a “científica” das expedições de Capelo e Ivens. Manuela Cantinho, antropóloga do IICT, aposentada e curadora da Sociedade de Geografia em “Livros de Viagem da Exposição Portuguesa ao interior da África Austral em 1877”, publicado em Tesouros da Sociedade de Geografia de Lisboa, 2001 prefere falar de explorações geográficas (Serpa) e comerciais, ou de “machila” (Capelo e Ivens). Seria tentador ver nessa trabalhadora incansável do Arquivo e da Sociedade, que biografou Henrique de Carvalho e tantos outros, uma versão feminina de Sebastião, ao passo que equivalente moral de Constança seria um jovem professor da Universidade do Porto que estuda Serpa Pinto há vinte anos, Nuno Resende, que conheci quando apresentou as fotografias do explorador no palácio Burnay em 2009. Outra alternativa seria Cristiana Bastos, historiadora do ICS (ex-GIS) da Universidade de Lisboa que, mau grado a sua obsessão pela higiene e medicina tropical, junta os dois amantes na sua prosa sobre explorações e travessias publicada num volume coordenado pelo Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto e o IICT em 2013, no qual fala do “estilo de conhecimento espectáculo de Serpa Pinto” (p. 337). Qualquer que seja a Constança escolhida, a tese e antítese mais sofisticada e apropriada ao romance contrafactual sobre as travessias seria político/espectáculo em tensão com científico/comercial. Mas a chave de leitura deste romance que eu defendo é antes deitar abaixo essa antinomia artificial, no espírito da lusofonia global: olha na mesma direção, a do bem comum lusófono! Um queixume antes de terminar. Sou o sócio nº 4214 da SGL, número atribuído em 1898 a meu avô e portanto ainda no século do livro e chorei “lágrimas autênticas” (como diria Fernando Pessoa) ao ler a indiferença cruel de Constança relativamente ao Arquivo Histórico. “Achas que vale a pena voltarmos ao museu?/– Não sei. Parece-me improvável. Mais livros, mais documentos?/ Não. Seguramente, não./– Então, onde poderá estar? Torre do Tombo? Arquivo do Ultramar? Uma Universidade?/– Não. Não acredito. Para além da Sociedade de Geografia, esquece! A estar, era lá que a encontrávamos. E eu não falho, Sebastião. Não a esse nível. Não penses como eu. Tens de pensar como tu. Raciocina como um biógrafo. Um farejador! Um roedor! E não me interpretes mal. Não desta vez…Onde guardarias tu algo de absolutamente precioso?” (p 179). E vão dali para Cinfães à procura da carta perdida… Também não queria que o autor me interpretasse mal. O livro é como se diz em inglês um page turner, li o pdf sem parar e depois emprestei o livro físico a um ilustre diplomata de Cinfães, além de trocar impressões com Cantinho e Resende, para evitar fazer name dropping sem autorização. Fico encantado que do Brasil colonial passasse a África num romance que considero tão gráfico como uma aventura do Timtim (porque não no Congo) contada por Claire Brétecher (autora de Les Frustés). Aqui estou, espero que subtilmente, a substituir séculos por décadas, 50, 60, 70, 80 antes de passar para os filmes. Porque ou me engano muito ou os amores tórridos do biógrafo alfacinha e da historiadora tripeira dão um filme de arromba num país lusófono à sua escolha. Estou certo que, além dos nomes aqui citados, muitos leitores do blogue gostarão do filme!
2014-11-10
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