Chega ao fim um ano de presidência portuguesa da iniciativa Eureka. Uma presidência que conseguiu aproximar ainda mais a investigação da indústria através de projectos economicamente competitivos. Foram aprovados mais 300 novos projectos e a participação portuguesa foi significativamente aumentada. Mas a presidência portuguesa da Eureka teve também um dos pontos importantes com o pedido da Coreia do Sul como país associado da iniciativa, e ainda países como o Brasil que mostraram interesse em trabalhar em conjunto. Uma mostra de projectos foi exposta em Lisboa, durante a reunião de ministros da iniciativa Eureka, permitindo verificar a estreita ligação entre ciência e indústria.
O esforço de Investigação, Inovação e Desenvolvimento está a ser feito em várias frentes e com recurso a estratégias cada vez mais cooperativas, em rede e com maiores recursos económicos.
Uma das importantes estratégias em investigação internacional passa pela Iniciativa Eureka. Esta iniciativa reúne, em projectos de investigação, cientistas e técnicos de diferentes países e tem como objectivo fomentar a competitividade empresarial com base no desenvolvimento científico.
Durante um ano, Portugal presidiu pela segunda vez, em 25 anos, à Iniciativa Eureka, uma iniciativa que envolve 38 estados.
Presidência, que termina agora com um saldo positivo de novos projectos.
«Esta Conferencia Ministerial aprovou um número extremamente elevado de projectos Eureka, representando um aumento de mais de 11%, relativamente ao ano anterior. Estes projectos, quase 300 novos projectos Eureka, incluem 33 projectos com participação portuguesa e esses 33 projectos representam um aumento de quase oito vezes relativamente ao número de projectos Eureka do ano anterior», afirma Mariano Gago, Ministro da Ciência, Tecnologia e do Ensino Superior.
Neste esforço de crescimento está a Comissão Europeia que se tornou parceira da Eureka e na qual colabora através de fundos do programa Eurostars de apoio às Pequenas e Médias Empresas.
«Portanto, quando pensamos hoje quais as coisas que temos de apoiar no nosso consumo, no nosso investimento, vamos pensar no futuro. Porque temos de pensar qual o tipo de investimento, qual o tipo de consumo é que é importante para que possamos vir a ser capazes de viver no futuro de forma apropriada. Certamente neste mundo mais competitivo e atractivo, que se está a tornar cada vez mais multipolar, a contribuição da Eureka é importante e crucial», explica Janez Potocnik, Comissário Europeu para a Ciência e Investigação.
A Iniciativa Eureka é hoje considerada como um instrumento importante no desenvolvimento e cooperação em investigação. A confirmá-lo está o interesse de países como o Brasil, a Argentina e a Coreia do Sul.
O pedido de adesão deste último, é visto pela Eureka com grande interesse.
«Trata-se de um acontecimento de enorme importância política e estratégica para as relações entre a Europa e a Ásia, designadamente com uma das economias mais importantes neste momento da Ásia, do ponto de vista económico, do ponto de vista científico e do ponto de vista tecnológico», refere Janez Potocnik, Comissário Europeu para a Ciência e Investigação.
«A Coreia do Sul é um país forte tecnologicamente. É também um forte competidor para nós. No entanto, suscita um grande interesse. Especialmente no campo das Tecnologias de Informação e Comunicação. E espero que esta seja uma área onde possamos sentir um membro associado com vida. Porque isto oferece também a oportunidade às empresas europeias de entrarem no mercado coreano das Tecnologias de Informação e Comunicação», adianta Frieder Meyer Kramer, Secretário de Estado alemão da Educação e Investigação.
O mesmo ponto de vista é partilhado pela Comissão Europeia.
«Como todos sabemos a cooperação internacional é vital para o futuro da Europa como região competitiva. A Área Europeia de Investigação precisa de estar aberta, de ser atractiva ao investimento em I&D e aos melhores investigadores de todo o mundo. A estratégia de internacionalização do Eureka é um elemento importante na verdadeira abertura da Área Europeia de Investigação ao mundo. Os países membros do Eureka farão escolhas estratégicas e a Europa vai certamente beneficiar com isso», afirma Janez Potocnik, Comissário Europeu para a Ciência e a Investigação.
São vários os projectos de investigação apoiados pela Eureka e alguns deles destacam-se pela inovação e aplicabilidade.
Um destes casos é projecto RailMap da empresa JERD ID da República Checa, que este ano foi distinguido com o Prémio Eureka.
O RailMap consiste num software, que usando a rede internet permite seguir a partir de qualquer parte do mundo as mercadorias transportadas através dos caminhos-de-ferro de 40 países europeus.
Um sistema que assenta em várias componentes.
«A primeira assenta nos sistemas das empresas de comboios, eles fornecem informação sobre a posição. A segunda, são as tecnologias de informação como unidades de GPS/GMS nos contentores ou então tecnologia RFID para obter informação sobre as posições», explica Petr Kroca, Gestor de Projecto da JERID, República Checa, e adianta «A possibilidade de usar RFID é pôr etiquetas no contentor, são necessários portões de RFID em todas as estações de comboios. Mas a segunda possibilidade é equipar a unidade, que é um pequeno equipamento no contentor com tecnologia GPS que envia informação através de SMS para o Centro».
Outro dos projectos em destaque é o da empresa GO Engine. Este projecto holandês consiste num motor para automóveis que reduz o consumo de combustível em mais de 40%, em comparação com os actuais com a mesma potência.
Resultado que é obtido através da variabilidade do rácio de compressão.
«Para ser mais específico o problema dos motores normais, hoje em dia, é que são muito bons quando se conduz com rapidez, mas o motor a gasolina tem um problema quando se conduz muito lentamente. Quando se conduz em cidade a eficiência só decai em 5% a 10%, portanto, 85% a 90% da energia do combustível é desperdiçada em calor. O que fazemos é a variabilidade do rácio de compressão, tornamos o rácio de compressão variável para ajustar o motor à condução rápida ou lenta para que esteja sempre no rácio óptimo de compressão», refere Bert de Gooijer, Director Técnico da Gopmecsys, Holanda
Mas como se obtém esta variabilidade do rácio de compressão?
«Aqui vê os pistões a andarem para cima e para baixo num motor de quatro cilindros em linha, mas normalmente o curso é sempre o mesmo, e também a posição de topo do pistão é a mesma. Basicamente o que fizemos é que temos o excêntrico ou excêntricos entre o veio das manivelas e a cambota e com este mecanismo podemos elevar o pistão. Assim, quando se conduz lentamente podemos elevar o pistão e isso é feito com um motor eléctrico na frente do motor, podemos dizer que isto é como o rácio de compressão de 8 para 1. Assim terá uma condução muito eficiente na cidade. E quando acelera, o sistema vai automaticamente, novamente com o motor eléctrico baixar o rácio de compressão para 8 para 1 ou 7 para 1, é o que quiser. E pode-se usar o turbo para ter muita potência. É assim que funciona», adianta Bert de Gooijer, Director Técnico da Gomecsys.
A empresa espanhola Visual Tools desenvolveu uma série de algoritmos que permitem a análise das imagens captadas através de câmaras de vigilância.
«Temos vários algoritmos concretos, por exemplo em lojas somos capazes de contar pessoas, inicialmente, para dizer aos donos qual é o índice de ocupação da loja e agora estamos a começar a fazer uma detecção da ocupação da loja e também uma detecção de qual o perfil aproximado da pessoa que entra. Somos capazes de detectar se é uma mulher ou um homem, onde é que fica parado mais tempo dentro da loja. Esse é um tipo de algoritmo. E, por exemplo, nos bancos também podemos fazer a detecção da cara para podermos tirar fotografias das pessoas que entram, concretamente», afirma António Pineda Cabello, Departamento de I&D, da Visual Tolls, Espanha.
As aplicações da tecnologia são várias e uma delas poderá auxiliar no planeamento de uma loja comercial, fornecendo dados sobre os locais que chamam mais a atenção das pessoas: identificando onde as pessoas estão mais tempo paradas ou onde estão em movimento.
Mas o software permite até fazer a distinção se a imagem é de um homem ou de uma mulher.
«Simplificando, nós fazemos esta detecção só olhando para a cara e temos em conta algumas características. Para simplificar, qual é a geometria da cara. Se é um homem, normalmente, tem uma cara mais larga. E também a detecção da distância entre os olhos, também o tamanho dos olhos. São muitas variáveis, mas normalmente a cara é muito descritiva e podemos saber olhando para estas características concretas qual é o sexo da pessoa. Normalmente é a geometria e também umas características que tem a ver com os olhos», explica António Pineda Cabello, Departamento de I&D, da Visual Tolls, Espanha.
Estes são alguns dos projectos apresentados durante a reunião de ministros da iniciativa Eureka. Uma mostra que esteve ao lado da exposição de projectos de empresas e entidades de investigação, integrada nas 4ªs Jornadas da Inovação.
As mais variadas entidades apresentam resultados das acções em Investigação e Desenvolvimento. Resultados que surpreendem pela inovação.
Um dos exemplos é o vinho Callabriga da empresa Sogrape. Um vinho que se caracteriza por ser o resultado de investigação nos domínios da intensidade aromática e da suavidade do paladar.
«Portanto, o nosso trabalho da suavidade, teve muito a ver, quase domar, a rusticidade dos teninos das nossas castas, e produzir os mesmos aromas, e a mesma qualidade, mas sem esse lado de dureza, que tornava o vinho desagradável, para quem não estava habituado», refere António Graça, Responsável pela Investigação e Desenvolvimento, da Sogrape, Vinhos S.A.
Mas se da casta vem a suavidade, o resultado final vem de inovadoras técnicas e métodos de tratamento.
«As técnicas em si, de vinificação, houve algumas obviamente, que foram novas, criadas, como por exemplo, a Delestage. A Delestage, consiste em pegar, na totalidade do líquido, de uma cuba em fermentação, retirar para a parte de cima da cuba, e depois de uma só vez largar o conteúdo todo em cima das películas, que se encontrava na cuba. Isso permite uma difusão dos compostos da qualidade para o gosto da fermentação de uma forma muito mais eficiente. Isso foi largamente, investigado e sobretudo a sua aplicação às nossas castas», adianta António Graça, Responsável pela Investigação e Desenvolvimento, da Sogrape, Vinhos S.A.
Mas a inovação na Sogrape não ficou por aqui.
Através da aplicação de Tecnologias e Informação à enologia, desenvolveu a Roda de Aromas do vinho. Uma aplicação acessível via Internet que permite identificar os aromas de um determinado vinho, de acordo com diferentes níveis de rigor.
«São níveis de generalidade-especificidade, ou seja, o nível inicial é um nível muito genérico que basicamente tem 7 ou 8 grandes grupos. Por exemplo, o grupo das frutas, o grupo das flores, o grupo das especiarias, o grupo da madeira. Depois vamos para o nível intermédio, que era aquilo que eu dizia há bocado. Dentro do grupo da fruta, temos os tropicais, temos os frutos frescos e os de carne branca, etc. E o terceiro nível já é um nível a que nós chamamos o descritor aromático, já é uma descrição muito fina do que é que já se está a sentir, já não é apenas um fruto tropical, já é ananás, já é banana», afirma António Graça, Responsável pela Investigação e Desenvolvimento, da Sogrape, Vinhos S.A.
Sentir o paladar e o aroma do vinho pode ser arte ou saber.
Mas o conhecimento é cada vez mais adquirido pela inovação em conteúdos multimédia. Uma área que exige cada vez mais e variadas competências.
«A Take the Wind, é um grupo de pessoas com competências multidisciplinares, desde a área científica, bioquímica, até aos argumentistas, designs, artistas 3D, programadores. (01:16:56:13) Gente da área da comunicação. Nós juntamos uma equipa, neste momento somos 11 pessoas, e o que fazemos é transformar conteúdo complexo, de base científica, em filmes, vídeos ou simuladores. Com o intuito de passar mais informação, mais rápido, e tornar o conhecimento científico mais aprofundado, inteligível», explica Pedro Pinto, Director-executivo da Take the Wind.
Como o objectivo é comunicar mais e melhor, a empresa explora os meios e as técnicas cruzando a linha da realidade com o virtual.
«Nós aqui inovámos no vídeo. O vídeo é, tem imagem real, qualidade cinematográfica, conjugada com 3D, que permite ver, quando eu faço por exemplo uma extensão da via área, o que é que eu estou a libertar ao nível do interior do corpo humano. Este conceito de transparência de corpo humano, ajuda-me a reter informação, e eu posso ter um curso hoje, mas daqui a 5 anos, porque a informação era visual, porque eu tive uma experiência mais emocional, quando aprendi. Uma secção de pânico, eu tenho mais serenidade, e consigo lembrar-me das técnicas e consigo agir. Aqui, o importante, de facto, é agir e agir correctamente», refere Pedro Pinto, Director-executivo da Take the Wind.
Experimentar é viver a acção, é estabelecer a interacção entre agentes. Um conceito inovador que a Take the Wind transpôs para um simulador cardíaco.
«Estamos a lançar neste invento um simulador cardíaco, um coração totalmente parametizavel, ao nível do batimento, da lsquemia, da contratibilidade, em que eu posso manipular nas minhas mãos um coração. Ver múltiplas vistas, ir até o tecido de condução, e perceber, depois multi-fenómenos, como sejam, electrocardiograma associado ao batimento, associado ao som. E perceber fenómenos, da anatomia do coração, da fisiologia, em contexto», adianta Pedro Pinto, Director-executivo da Take the Wind.
Projectos inovadores com aplicação real que são resultado do aumento de investimento do Estado e das empresas em I&D e que é fundamental para a competitividade num mercado global de inovação tecnológica.