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16 de Julho de 2018
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Planos de Controlo Integrado de Pragas tentam proteger herança cultural
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Realização: António Manuel Silva

Data: 23-12-2009

Produção: TV Ciência Online

Suporte original: DV CAM

Duração: 16':32''

Sinopse:

Arquivos e bibliotecas portuguesas põem em prática Planos de Controlo de Pragas para proteger espólio nacional. Planos que tentam evitar a presença de insectos e microorganismos em objectos culturais.  

Contextualização:

Documentos, milhões de documentos, dezenas de quilómetros de prateleiras suportam o registo de um passado que é hoje a nossa história, a nossa identidade. Registo de vidas, de acontecimentos, peças de uma evolução do conhecimento que nos trouxeram aos nossos dias.

Conservar estes registos é manter a memória de um tempo, para que em qualquer momento do tempo presente, possamos saber quem somos e ter linhas de orientação para um futuro.

Ao longo do tempo, guardiões dedicados têm travado uma luta constante contra os mais diversos exércitos de destruição. E uns dos mais temidos inimigos são os insectos e mesmo os microorganismos.

O entomologista inglês David Pinniger, considerado um especialista mundial no controlo das pragas em arquivos, bibliotecas e museus, veio a Portugal para colaborar, a convite do Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT), na formação de técnicos portugueses dedicados ao Controlo Integrado de Pragas.

Para o especialista a identificação dos possíveis invasores é importante. «Se tiver materiais de madeira então é todo o grupo de escaravelhos, que são denominados de escaravelhos Anobium. E algumas das espécies, a Anobium punctatum que encontramos aqui em Lisboa», mas «há outros grupos de insectos em lã, têxteis e outras coisas e há a traça da roupa, a Tineola, mas também aquilo a que chamamos de escaravelhos-das-carpetes que andam livremente, os Attagenus».

Ou as térmitas que, a todo o custo, o Arquivo Histórico Ultramarino, do Instituto de Investigação Científica Tropical, tenta impedir. «Nesta área de Controlo Integrado de Pragas nós, neste momento, estamos a proceder ao controlo das térmitas que apareceram aqui no edifício do AHU, refere Conceição Casanova, Directora de Serviços IICT.

Um controlo, cuja estratégia tem vindo a ser modificada. «Até agora os tratamentos feitos foram tratamentos com barreira química bastante ofensiva para o meio ambiente e, neste momento, nós estamos a adoptar uma nova metodologia que tem também a utilização de um insecticida mas de baixa toxicidade», explica Conceição Casanova.

No combate às térmitas a estratégia adoptada no Arquivo Histórico Ultramarino baseia-se em linhas avançadas de armadilhas. A especialistas explica que «criando uma barreira com iscos, é uma maneira de irmos controlando, sabendo quais são os pontos do edifício onde ela está mais activa, porque é a térmita subterrânea e ter sempre atenção para ela não entrar no interior do edifício».

Na segunda linha de defesa, e dadas características construtivas do edifício do AHU, a estratégia passa por recorrer às limitações físicas da térmita. «São uns pequeninos tubinhos de plástico que nós enfiamos num rodapé de madeira, mas que são bastante pequenos. O que acontece é que a térmita não quer absolutamente luz nenhuma para se desenvolver num determinado local. Quando há estes tubinhos, a luz que está aqui passa pelo tubinho e ela vê que há ali luz, e como quer passar de um lado para o outro, ela tapa o buraco com excrementos que produz e dessa maneira nós, colocando vários tubinhos em diferentes sítios, conseguimos perceber quando é que ela está activa. Porque quando ela está activa vai cobrir aquele tubinho, o tubinho é transparente e nós conseguimos ver que ela está ali em actividade», explica a especialista.

O resultado de ataques é visível nos documentos…em qualquer documento, e quando os invasores não são controlados a tempo, os resultados são devastadores.

«Não há nenhum estudo feito sobre quais as colecções ou quais os fundos mais afectados. Posso-lhe dizer, experiência do projecto que estamos a acabar, nomeadamente, da Inquisição de Lisboa que é a documentação da Inquisição de Lisboa – da qual fazem parte mais de 17 mil processos e mais de 1000 livros – é uma documentação que está muito afectada, tanto por ataque de xilófagos como por microorganismos», afirma Teresa Figueiredo, Chefe de Divisão de Conservação e Restauro do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Dados irreparáveis como nesta documentação agora na Torre do Tombo que satisfez o apetite de insectos bibliógrafos, mas também de xilófagos, como por exemplo, o bicho da madeira.

«O papel aparece rendilhado o que acaba por – além de eles não escolherem onde vão causar o dano, portanto, entram pelo zona de texto – e efectivamente perturbam não só a leitura como dificultam e prejudicam o manuseamento da documentação, que se torna depois perigoso com o entrelaçar de zonas que foram destruídas», refere Teresa Figueiredo.

Para Sónia Domingos, especialista em Conservação e Restauro do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, os fungos são dos mais perigosos inimigos da documentação. Inimigos que se instalam silenciosamente no suporte e dele se alimentam.

«Os fungos destroem não só o suporte fisicamente como também acabam por afectá-lo quimicamente», afirma Sónia Domingos e explica que isto acontece porque «o fungo habita o suporte, ele destrói as fibras do papel deixando o papel completamente sem coesão física. Por outro lado, a sua digestão produz substâncias coloridas que depois dão aquele aspecto ao fungo que o identifica com alguma facilidade visualmente. Portanto, eles são roxos, azuis, etc.».

Para proteger a documentação histórica dos mais diversos invasores construíram-se ou adaptaram-se construções e estabeleceram-se planos. O mais conhecido, dá pela designação de Plano de Controlo Integrado de Pragas.

«Manutenção do edifício e também manutenção da limpeza, que é fundamental ter uma limpeza criteriosa de todas as salas de trabalho, das zonas de bar e fundamentalmente dos depósitos onde está armazenada a documentação», explica a Chefe de Divisão de Conservação e Restauro do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Os invasores utilizam todas as possibilidades para entrar no arquivo, como seja, quando da incorporação de nova documentação oriunda de outros locais.

Neste caso, o Plano de Controlo passa por colocar a documentação em quarentena e por uma fase de desinfestação. Depois, a documentação devidamente condicionada e identificada é colocada numa camera de expurgo.

«Digamos que o ambiente dentro da camera é feito vácuo e é substituído por um gás inerte, neste caso o azoto. E o que fica de oxigénio é residual, não dá para a sobrevivência de nenhum insecto e nós geralmente utilizamos o protocolo que demora duas semanas com a documentação dentro da camera», refere a especialista.

Com uma temperatura a 25,5 graus Célsius, 55% de humidade relativa e 0,2 a 0,3 de oxigénio, todos os possíveis insectos são destruídos. «A seguir da camera de desinfestação vai imediatamente para a sala contígua que é a sala de higienização», explica Teresa Figueiredo.

Aqui a documentação é limpa de todos os resíduos, poeiras e restos de insectos. Para eliminar possíveis microorganismos, os documentos são encapsulados numa película de plástico e submetidos numa camera à temperatura de menos 30 graus Célsius.

«Nós estamos a fazer esse protocolo só para documentação que está infectada com microorganismos e tivemos como já lhe disse resultados positivos porque foram feitas mesmo análises», afirma a especialista da Torre do Tombo.

Se os documentos do Arquivo Histórico Ultramarino e da Torre do Tombo são de valor imensurável, não são de menor valor os que se encontram em museus, como no Museu Nacional de Etnologia.

«Este museu é um Museu Etnográfico, portanto, tem todo o tipo de materiais que se possa imaginar. Temos desde os materiais mais tradicionais como seja a madeira, metal, têxteis, cerâmica, mas temos depois materiais completamente invulgares. Temos objectos que são feitos de insectos também eles próprios, temos objectos feitos de fibras vegetais, de pastas orgânicas, de animais, do que seja», explica Joana Amaral, Responsável pela área de Conservação e Restauro do Museu de Etnologia.

Materiais diversos e diversas peças documentais, mas os invasores são os mesmos. «Nos têxteis é sobretudo o ataque por traças, aquilo que nós conhecemos vulgarmente como traças. No caso dos materiais das fibras vegetais e da madeira é aquilo que vulgarmente nós designamos por caruncho. São esses os insectos que são maiores causadores de dano», afirma Joana Amaral.

Mas há madeiras que preocupam mais esta especialista e responsável pela conservação, já que os insectos, «não comem igualmente todas as madeiras, vão comer preferencialmente as madeiras mais macias, mais suaves. Dentro dessas, vão ainda comer os anéis de crescimento que são eles próprios também eles mais macios em oposição aos anéis de inverno que são mais rijos e onde as fibras acumulam mais toxinas e são menos comestíveis e menos agradáveis para os insectos, então eles vão comer algumas zonas preferencialmente em detrimento de outras».

Para além da celulose, há outras substâncias nos suportes que atraem os insectos como «por exemplo, um papel antigo que era tratado com gomas ou a colagem de encadernações ou até mesmo a colagem de madeiras ou de outro tipo de objectos. Tudo o que envolva colas orgânicas mais tradicionais, como por exemplo, o grude ou a cola de amido, ou cola de peixe, todos esses tipos de colas como tem uma origem também orgânica vão ser elas próprias alimento para os insectos e por vezes vão atrair muito mais os insectos do que os outros materiais que constituem o objecto», explica Joana Amaral.

Também os fungos têm aqui algumas preferências. «Que são os objectos que têm na sua superfície uma camada de uma substância orgânica, são por exemplo, os instrumentos que serviam para fabrico do queijo ou da manteiga, ou instrumentos de cozinha como as colheres de pau ou os almofarizes, que são de madeira mas que têm à sua superfície uma espécie de uma sujidade orgânica típica da cozinha rural portuguesa. Então são extremamente susceptíveis ao ataque desses fungos ou desses microorganismos», explica a especialista do Museu de Etnologia.

Como na Torre do Tombo ou no Arquivo Histórico Ultramarino, o Plano de Controlo Integrado de Pragas usa as mesmas linhas avançadas de defesa. «Nós utilizamos as armadilhas para monitorizar a população de insectos que existe no museu. Porque nós ao colocarmos armadilhas em locais estratégicos do edifício, em todos os andares do edifício, junto de todos os locais onde podem entrar ou circular insectos, conseguimos perceber que insectos é que existem, em que fases do ciclo de vida é que estão e em que local do edifício é que estão», explica Joana Amaral.

Também aqui, a desinfestação das diversas peças museológicas utiliza o tratamento por frio, como explica a especialista. «Fazemos uma embalagem do objecto em que o isolamos do ambiente exterior e depois colocamos dentro de uma arca congeladora, a temperatura é reduzida até aos menos 18 graus, pelo menos, e os objectos são mantidos durante duas semanas nessas condições. Depois retiramos os objectos, deixamos os objectos atingirem a temperatura ambiente pelo menos durante dois dias e finalmente abrimos a embalagem, o objecto está em princípio pronto para ser recolocado no seu local de reserva ou de exposição, mas nós ainda pomos esse objecto num período de quarentena para verificar de facto se a desinfestação foi bem sucedida».

Mas especialistas do Instituto de Investigação Científica Tropical estudam uma nova técnica, que consiste em submeter os documentos a altas temperaturas. «Essa técnica é aplicada a todas as espécies. Essa técnica consiste no aumento da temperatura para criar uma temperatura que atinge os 60 graus no interior de uma camera fechada de tal maneira que o insecto quer adulto, quer a pupa, quer memo o ovo, acaba por desidratar e morre», explica Conceição Casanova e adianta que «é uma técnica bastante boa porque nós a 60 graus em apenas duas horas conseguimos eliminar todas as espécies e há espécies em que inclusivamente uma hora é mais do que suficiente».

Para produzir as elevadas temperaturas os especialistas recorrem a uma fonte renovável: o Sol. «Nós estamos a tentar desenvolver a metodologia com uma forma económica de a produzir. Estamos a fazer a tenda com plásticos de diferentes naturezas, um deles que não deixa que os raios ultravioleta passem para o interior e usamos tubos de PVC para fazer a estrutura e colocamos esta tenda num espaço exterior onde haja incidência do Sol e tentamos atingir estas temperaturas no interior dessa camera só através do calor, da energia do sol», explica a especialista do IICT e adianta que «estamos a tentar desenvolver esta metodologia, sobretudo porque é um sistema eficaz e ao mesmo tempo é bastante barato em termos de custos, pode ser feito pelos próprios funcionários do Arquivo ou da biblioteca e terá muita utilidade para os países de expressão portuguesa».

Os desafios que se colocam aos arquivos e aos museus são enormes, pois destes está cada vez mais dependente também a conservação da memória da biodiversidade da Terra.

«Não podemos atribuir um preço a isto», afirma David Pinniger e adianta que «algumas dos espécimes da história da natureza que perdemos e o exemplo que penso seja o melhor, é do Dôdo, o pássaro extinto das Maurícias. Não há nenhuma parte do mundo onde exista um espécime do Dôdo. No Museu de Oxford há uma cabeça e duas patas, o resto foi comido por insectos e não se pode ter um melhor exemplo de algo que foi muito, muito importante para a nossa história e para a história do mundo e perdeu-se porque foi comido por insectos».

A luta contra os invasores continua e ao mesmo tempo restaura-se e preserva-se o que dos espólios ainda restou.

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