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20 de Setembro de 2017
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Cientistas lusófonos são forçados a publicar em inglês
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Realização: TV Ciência

Data: 2013

Sinopse:

Decisões de financiamento não favorecem que cientistas lusófonos publiquem em língua portuguesa. A falta de termos e respetiva normalização científica, bem como a baixa “estima” pela língua são outros dos fatores apontados.

Contextualização:

Jornalista: Lúcia Vinheiras Alves / Imagem e Edição: António Manuel
 

Na 2ª Conferencia Língua Portuguesa no sistema mundial, que teve lugar em Lisboa, um dos temas em debate foi a língua portuguesa como língua de ciência e inovação.

 

Com 250 milhões de falantes e ocupando o sexto lugar no mundo, a língua portuguesa posiciona-se em quarto lugar no mundo dos negócios, mas o lugar que ocupa no mundo não se traduz em posição consentânea quando falamos de publicações científicas em língua portuguesa e quando a produção científica dos falantes do português cresce todos os dias.

 

Para investigadores participantes na Conferência existem fatores que são determinantes para a publicação científica em português.


João Veloso, investigador da Universidade do Porto explicou que «há um fator económico aqui muito grande», já que «hoje os cientistas são muito pressionados em termos de avaliação no desempenho para publicarem em determinadas revistas que pura e simplesmente não aceitam línguas que não o inglês».

 

«A questão põe-se para o inglês como se põe para outras línguas tão importantes e expressivas a nível de tradição cultural e tradição académica como o português, estou a lembrar-se do francês, do espanhol ou do alemão», frisou o investigador.

 

Também Nélson Zagalo, investigador da Universidade do Minho adiantou que «o mais relevante está do lado político na forma como são feitas as regulações, não é da carreira de investigação, mas é dos financiamentos da investigação».

 

É sabido que «se os investimentos na investigação são feitos segundo os padrões bibliométricos emitidos por grandes organizações internacionais que se regem pela língua inglesa, maioritariamente, é natural que quem está em Portugal ou no Brasil tenha uma tendência para deixar de escrever e publicar em português e passe a fazê-lo em inglês, porque sabe que se o fizer em português corre o risco de não ter financiamento para a investigação nos próximos anos e isto tem um impacto tremendo em tudo o que nós fazemos», afirmou o investigador.

 

Mas os especialistas apontam também a falta de terminologia científica em língua portuguesa como um fator condicionante.

 

João Veloso explicou que «a falta de alguma normalização e harmonização terminológica pode explicar também algumas dificuldades a nível de uma maior visibilidade do português como língua de criação e publicação científica».

 

Também Gladis Almeida, investigadora do Departamento de Letras, na Universidade Federal de São Carlos, no Estado de São Paulo, no Brasil, explicou que «muitas vezes os cientistas não têm os termos em português para nomear os conceitos da sua ciência e acabam recorrendo a empréstimos linguísticos de outra língua, maioritariamente do inglês».

 

A língua portuguesa tem de possuir condições para dar resposta às exigências de uma terminologia que evolui com a própria evolução científica e tecnológica.

 

«Como linguísticas e eu sobretudo como terminóloga», afirmou Gladis Almeida, «tenho de fazer a ‘Lição de Casa’, ou seja, tenho de fazer a minha parte que é prover esses cientistas de uma terminologia vernácula nas suas áreas de conhecimento para, se for o caso produzir um texto científico em português, existam termos adequados para nomear esses conceitos em português».

 

A especialista brasileira explicou que existem «muitos termos que ainda estão em inglês que estão na fase de chegada, termos que são compostos e que há uma parte do próprio termo em inglês, uma sigla inglesa e uma palavra vernácula em português, e isso é uma fase natural da língua».

 

A investigadora exemplificou, ao dizer que «isso se passou com a computação, no início da década de 90 em que praticamente para se falar de coisas de computação só se usava o inglês, hoje muitas coisas já foram traduzidas para o português», por isso, «acho que é um caminho natural, a ciência ainda está em processo de consolidação e se importamos a técnica, o termo que a denomina vem junto», pelo que «também talvez seja o caso de começarmos a produzir ciência nós mesmos e não só importar ciência», afirmou Gladis Almeida.

 

Na Conferência foram divulgados alguns números sobre publicações científicas no espaço da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e a colaboração entre investigadores.

 

Entre 2002 e 2012, Portugal publicou 4083 artigos em colaboração com o Brasil, 142 com Moçambique, 71 com Angola, 27 com Cabo Verde, 16 com São Tomé e Príncipe e oito com a Guiné-Bissau.

 

Em termos de percentagem nas publicações científicas dos países da CPLP, os investigadores portugueses colaboraram em 57,1% com São Tomé e Príncipe, 38% com Cabo Verde, 25,9% com Angola, 11,8% com Moçambique, 2,9% com a Guiné-Bissau e 1,2% com o Brasil.

 

Mas os investigadores da CPLP mantêm colaborações essencialmente com outros países fora da comunidade. O Brasil tem uma colaboração com os EUA em 34.491 artigos, Portugal com Espanha em 10.792, Moçambique com os EUA em 271 artigos e a Guiné Bissau tem como principal parceiro a Dinamarca com 181 artigos.

 

As publicações são sobretudo em inglês, verificando-se que nos artigos indexados na Web of Science, Portugal num total de 114 mil 815 artigos, publicou 112 mil 120 em língua inglesa e apenas 2001 em língua portuguesa.

 

Também o Brasil, dos 345.280 artigos indexados, 298.693 estão em língua inglesa e apenas 43.659 em língua portuguesa. Em Moçambique, em 1205 artigos indexados apenas quatro são em português, na Guiné Bissau só um em 276 está em português, em Angola dos 274 indexados três estão em português, em Cabo Verde em 71 verifica-se que cinco estão em português e em São Tomé e Príncipe dos 28 artigos indexados todos estão em inglês.

 

Outra das questões que os investigadores apontam como condicionante na afirmação da língua portuguesa como língua de ciência é a falta de plataformas de suporte e acesso de publicações científicas em português.

 

Nélson Zagalo explicou que «nós temos algumas plataformas mas é preciso continuar a investir. Não podemos pensar que apenas chegando às plataformas internacionais está o caso resolvido, porque se não existirem plataformas alternativas de repente vamos ter um monopólio internacional, que já temos, centrado nos EUA que regula toda a questão científica».

 

E com isso «pode haver uma guetização da informação ou da investigação na língua portuguesa, sendo que o problema não é a guetização, mas é termos também as nossas plataformas e formas de avaliarmos a nós próprios», afirmou o investigador da Universidade do Minho.

 

Para já o SciELO Citation Index, que abrange várias publicações científicas em língua portuguesa, tem agora mais impulso com a ligação a um dos índices bibliométricos científicos internacionais mais importantes – o Web of Science, da Web of Knowledge.

 

«É um passo muito importante porque a SciELO, que inclui atualmente revistas onde já muitos cientistas portugueses publicam, vai colocá-los agora num dos índices bibliométricos que são muito cotados, isto é uma questão quase de mercado infelizmente. Acho que é um passo muito importante», afirmou João Veloso.

 

Gladis Almeida partilha da opinião e referiu que «é um reconhecimento internacional do espaço criado pelo SciELO inicialmente com o propósito de divulgar os trabalhos de língua portuguesa».

Mas para que a produção científica em língua portuguesa se possa vir a afirmar internacionalmente, os especialistas apontam linhas de ação.

 

«Uma é incrementar a publicação de tradução científica, quer do português para outras línguas, porque há muitas ciência portuguesa que seria mais conhecida se fosse traduzida para algumas línguas e vice-versa, a tradução de textos científicos para português. A questão da harmonização terminológicas é fundamental. E considero que seja viável» e «é um imperativo neste momento», adiantou o investigador da Universidade do Porto.

 

«Como o Acordo Ortográfico no artigo segundo prevê a construção de um vocabulário ortográfico comum com as terminologias dos países da CPLP, trouxe uma proposta real que já está sendo feita no Brasil que é a terminologia da agricultura», explicou Gladis Almeida.

 

A investigadora brasileira acrescentou que «no âmbito da construção do vocabulário ortográfico comum, que é um projeto oriundo do Acordo Ortográfico de 90, consolidado pelo Plano de Ação de Brasília e que é coordenado pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa, decidimos que as primeiras terminologias a serem harmonizadas no âmbito da CPLP seriam agricultura, pesca, meio ambiente, saúde, educação e legislação. Que são áreas que existem nos oito países».

 

E ao harmonizar a terminologia, a ligação entre o falante e a língua portuguesa pode assumir outra dimensão.

 

«Espero que tenha como impacto uma autoestima», afirmou Gladis Almeida e explicou que tem a ideia que «os falantes da língua portuguesa têm uma baixa estima em relação à sua língua materna ou a sua língua oficial» e o «que eu espero é que haja uma autoestima», ou seja, a ideia de que «posso publicar em português, de que existem bases de dados que podem indexar o meu artigo científico em português».

 

Por isso, «espero que os próprios cientistas se sintam mais motivados a produzir os seus textos em língua portuguesa e, principalmente, que os colegas citem os seus pares. Isso é uma coisa impressionante, porque no nosso Índice de Citação parece que há um certo desmerecimento quando citamos o nosso colega que também escreve em português» e o «nosso colega que é muito bom naquilo que faz, acaba por ter um baixo índice de citação porque acaba-se por citar o colega norte-americano, inglês, francês», acrescentou a especialista brasileira.

 

Uma nova dimensão da língua portuguesa como língua de ciência e inovação com projeção mundial depende de todos os falantes lusófonos, mas também de um Plano de Ação e de medidas concretas que reduzam as atuais barreiras e incentivem a publicação de ciência em língua portuguesa.

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