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14 de Dezembro de 2017
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Arquivo Histórico Ultramarino com novo acervo documental sobre habitat na Guiné-Bissau
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Realização: TV Ciência

Data: 2014

Produção: TV Ciência

Sinopse:

Documentos da Missão de estudo do habitat nativo da Guiné- Bissau (1959-1960) integram o acervo do Arquivo Histórico Ultramarino. Um acervo agora doado pelo Arquiteto Fernando Schiappa Campos que vai trazer uma nova perspetiva histórica. 

Contextualização:

Jornalista: Lúcia Vinheiras Alves / Imagem e Edição: António Manuel

 

Mais de 2.500 documentos da Missão de estudo do habitat nativo da Guiné-Bissau, que decorreu entre 1959 a 1960, fazem agora parte do acervo do Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), do Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT).

 

Os documentos, em que a maior parte são fotografias, incluem desenhos e cadernos de campo que até agora estavam na posse do arquiteto Fernando Schiappa Campos, um dos elementos da missão à Guiné.


«O nosso trabalho era o estudo do habitat das etnias principais da Guiné-Bissau», conta o arquiteto Fernando Schiappa Campos à TV Ciência e recorda que na altura «começámos a trabalhar à volta de Bissau, depois fomos até ao Norte, depois para nascente, demos a volta a nascente e depois chegamos à parte inferior desse território, tomámos um barco e fomos para os Bijagós».

 

Um percurso que permitiu recolher informação sobre modos de vida e de habitat de dez etnias guineenses, ao serviço do Gabinete de Urbanização do Ultramar.

 

Um Gabinete que, como refere Ana Vaz Milheiro, investigadora em arquitetura colonial portuguesa, no Dinâmia'CET, do ISCTE-IUL, tratava dos planos de urbanização das ex-colónias.

 

«Este organismo envolvia planos de urbanização e também projetos de arquitetura para os principais equipamentos para tudo aquilo que era na altura o antigo Império português que ia desde Cabo Verde até Timor, aquele território vastíssimo», explica a investigadora.

 

«Era um órgão centralizado aqui em Lisboa, eles (engenheiros e arquitetos) desenvolviam estes projetos em Lisboa com o objetivo de os tornarem mais baratos e de criarem alguma teoria e conhecimento sobre o que é que era projetar cidades e arquitetura para climas tropicais, muito diferentes do clima temperado em que Portugal continental e as ilhas se integram», afirma.

 

Na missão, que integrou Fernando Schiappa Campos, a técnica de recolha valorizou a fotografia, como recurso documental.

 

O Arquiteto explica que «a nossa intenção de utilização da fotografia era arranjar um apoio para se poder mais tarde dizer que naquela ocasião vivia-se assim ou fazia-se isto ou aquilo».

 

Mas Fernando Schiappa Campos explica também que as casas habitadas pelas populações poderiam revelar muita informação.

 

«A casa quando é bastante investigada esclarece muita coisa – e nós procurávamos marcar como é que faziam as casas e porque havia situações muito diferentes. Umas com paredes finíssimas, como se pode ver nalgumas fotografias, outras mais largas, outras tinham paredes vegetais, só com fibras, porque o clima da Guiné é muito pesado, as temperaturas são muito altas durante metade do ano e as pessoas no sítio onde dormem têm que ter um sítio mais fresco», afirma.

 

O protocolo de transferência da documentação para o AHU, agora assinado entre o IICT e o Arquiteto Fernando Schiappa Campos, traduz informação que vai muito para além de uma descrição dos habitats, já que inclui registos sociológicos, antropológicos e até referencias linguísticas.

 

Maria da Conceição Casanova, investigadora do IICT, explica que o acervo «apesar de ser relativo ao estudo do habitat nativo da Guiné acaba por ser bastante abrangente, focando vários aspetos da vida social das diferentes etnias da Guiné e, inclusivamente, alguns aspetos linguísticos que são bastante interessantes que estão nos vários cadernos de campo, além dos desenhos que no fundo registam o espaço e as diferentes construções do habitat nativo».

 

E depois, destaca a investigadora, «a fotografia que é massa documental maior que fala muitas vezes por si só, porque é a imagem e o poder da imagem».

 

Numa perspetiva da investigação, estes documentos vão permitir uma nova abordagem histórica, como explica Ana Vaz Milheiro. «Ficamos a saber como é que nos anos de 1950 e de 1960, por exemplo, as comunidades nativas, os africanos na Guiné viviam. Como é que se vivia nesse período colonial, não tanto no espaço urbano de Bissau ou nas outras cidades ou em Bafatá ou nas outras vilas, mas como é que viviam as comunidades no interior da Guiné, as comunidades que continuavam a viver sobre os seus costumes e tradições mais ancestrais».

 

Para além disso é possível ficar a conhecer com «que olhar é que os arquitetos lançaram sobre, que interesse viram nesse modos de vida para poderem integrar nos seus próprios projetos», explica Ana Vaz Milheiro.

 

A investigadora do ISCTE-IUL refere ainda que com estes documentos «vamos ficar a conhecer fundamentalmente um período da história da fase final da colonização portuguesa que ainda está contada de uma forma muito estereotipada e que estes documentos juntamente com outros vêm trazer uma luz mais clara».

 

«Os arquitetos conheciam as populações africanas, tentavam recolher elementos que lhes permitissem compreender os seus modos de vida. Dados que há cinco, sete, dez anos atrás não eram conhecidos, as pessoas pensavam que não havia esse conhecimento sobre os habitats tradicionais», afirma Ana Vaz Milheiro.

 

Para que os documentos possam ser melhor estudados e conservados, o AHU vai proceder ao adequado tratamento arquivístico. Maria da Conceição Casanova explica que primeiro vai ser feita «uma inventariação em base de dados, depois a digitalização das diferentes imagens e numa última fase elas serão disponibilizadas no Arquivo Cientifico Tropical Digital, este é o objetivo».

 

Para além disso, acrescenta a investigadora do IICT, «o AHU e toda a equipa que tem vindo a trabalhar nestas áreas tem a responsabilidade de preservação deste património para o futuro, para as gerações futuras e especialmente para a comunidade científica de investigadores de história da ciência, mas também de sociologia e antropologia que queiram aceder a este acervo». Assim, no AHU ou a partir do Arquivo Cientifico Tropical Digital, os documentos poderão vir a

satisfazer o interesse dos mais diversos investigadores.

 

Para Ana Vaz Milheiro «este material será até do interesse de investigadores internacionais. Porque como a maior parte das histórias de colonização terminaram na década de 1960 e nós fomos dos poucos países que continuou um processo colonizador para lá dos anos 1960, este tipo de trabalhos não foi desenvolvido noutros países naquela época».

 

Para além do valor para a investigação histórica, os documentos ilustram ainda o modo como vivem alguns povos da Guiné-Bissau, já que «muitas destas comunidades ainda hoje vivem de forma muito aproximada aquela que o Arquiteto na altura levantou e que os documentos que vai disponibilizar agora mostram», refere a investigadora do ISCTE-IUL.

 

«Este conhecimento embora seja reportado ao final dos anos 1950, princípios dos anos 1960, é muito importante ainda hoje para compreendermos e até numa lógica de partilha, de projetos comuns com os países que têm o português como uma das suas línguas oficiais em África, porque são dados que ainda não foram ultrapassados, não houve outros trabalhos a seguir no terreno que ultrapassassem muitas destas pesquisas em que o Arquiteto participou», afirma Ana Vaz Milheiro.

 

Para que seja melhor conservado e preservado este acervo e, sobretudo, para partilhar os testemunhos de um passado considerado importante, o Arquiteto Fernando Schiappa Campos decidiu doar o acervo ao AHU, do IICT.

 

«A certa altura achei que o bom caminho para estes documentos era doá-los ao Instituto», afirma o Arquiteto e justifica que este acervo «é grande demais para uma pessoa sozinha ter este material» e era necessário «ter um Gabinete para tratar deste assunto, porque há que cuidar para as coisas não se estragarem e (o Instituto) há de lhe dar um andamento útil».

 

E «esperemos nós, que esta informação permita esclarecer o que se passou numa determinada época e como é que as coisas poderão desenvolver-se. O objetivo é francamente esse. No fundo ser útil para a Guiné-Bissau», afirma o Arquiteto Fernando Schiappa Campos. 

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